Nos últimos seis anos, o salário-mínimo real mais que dobrou no México. Não é pouca coisa, especialmente se considerarmos que a implementação dessa política pública não acarretou perda de empregos nem aumento de preços. Sem dúvidas, o fato de que inicialmente o salário-mínimo mexicano estava muito abaixo da média da América Latina favoreceu o resultado. No entanto, com o aumento mais recente, o piso salarial mexicano já superou o de mais da metade dos países da região. Além disso, ao longo dos anos, a política de valorização do salário-mínimo foi impactando cada vez mais pessoas.1Conasami, “Propuesta de fijación del Salario Mínimo 2025” (2024), disponível em: https://www.gob.mx/cms/uploads/attachment/file/960834/Propuesta_de_fijaci_n_2025.pdf. Se, em 2018, 13,3% da força de trabalho formal foi beneficiada; em 2024, a cifra cresceu para 38,6%. Em 2025, 37,4% dos trabalhadores formais foram amparados, o que equivale a cerca de 8,4 milhões de cidadãos mexicanos.
Como se explica o fato de que aumentos reais tão significativos no salário-mínimo não tenham provocado desemprego ou inflação? A resposta-chave está na assimetria entre empregadores e trabalhadores no país. O mercado de trabalho mexicano é altamente monopsonista,2No mercado de trabalho, um monopsônio ocorre quando a demanda por trabalho está concentrada na mão de um único ou de poucos empregadores. Uma vez que os trabalhadores não têm alternativas de emprego, isso permite aos empregadores fixar salários abaixo do nível competitivo. A falta de concorrência entre empregadores enfraquece o poder de barganha dos trabalhadores e tende a resultar em salários menores, níveis mais baixos de mobilidade laboral e condições de trabalho piores. não só porque o número de empresas é pequeno, mas porque a atuação dos sindicatos e a aplicação da legislação trabalhista são limitadas. As práticas trabalhistas predominantes no México permitem às empresas fixar salários muito menores do que os que seriam praticados em um mercado de concorrência perfeita, garantindo-lhes, às custas disso, lucros extraordinários. Esse tipo de distorção estrutural não só afasta os hipotéticos efeitos negativos da valorização salarial que costumam ser alardeados por grupos contrários a políticas dessa natureza, mas os inverte: desde a implementação da política non México, ela não só contribuiu para reduzir a pobreza, mas gerou aumentos sem precedentes na renda familiar e desafiou previsões de inflação descontrolada e aumento do desemprego.
A virada radical na política salarial mexicana se traduziu em um crescimento real de 25% da renda média e em uma significativa redução da pobreza e da desigualdade. Mas, apesar de serem extremamente significativas, essas mudanças ainda não são suficientes para nivelar o campo de batalha entre capital e trabalho. Enquanto a participação dos salários na renda nacional aumentou ligeiramente, os lucros não perderam sua posição de liderança.
Ponto de partida
Em 1976, após um crescimento gradual que se sustentou por quase três décadas, o salário-mínimo mexicano atingiu o máximo histórico de US$ 20,26 por dia (em valores de 20253A taxa de câmbio adotada em todo o texto tem como referência o valor de 10 de junho de 2025.). Esse processo foi interrompido pela crise econômica que, no ano seguinte, submeteu o país à combinação de hiperinflação com desemprego em massa. A resposta das autoridades à pressão sobre os preços foi limitar qualquer reajuste do salário-mínimo a um patamar inferior ao do crescimento da inflação. Uma vez que o valor de muitos salários do próprio setor privado e de transferências públicas de diversas naturezas era indexado ao salário-mínimo, a consequência desse quase congelamento foi uma perda de 75% do poder de compra da população ao longo das décadas seguintes.
Anos depois, na década de 1990, quando os efeitos mais nocivos da crise já haviam sido amplamente superados, o México abraçou o consenso neoliberal e voltou sua política econômica à abertura comercial e à inserção nos mercados globais. A particularidade mexicana, no entanto, era uma integração muito mais profunda com os vizinhos da América do Norte. Para garantir a competitividade internacional, o governo optou por manter os salários artificialmente baixos, o que resultou em um congelamento do salário-mínimo em cerca de US$ 5,25 por dia (em valores de 2025) que durou entre 1990 e 2017, quando a estagnação foi interrompida por um tímido aumento real de 4%.
O ponto de inflexão foi em 2018, durante o governo de Andrés Manuel López Obrador. Em resposta à crescente demanda popular por melhorias salariais, uma equipe de economistas progressistas do Colégio do México recebeu do governo a missão de desenhar estratégias para aumentar o salário-mínimo sem desestabilizar outras variáveis da economia. O resultado desse rigoroso processo de pesquisa foi um plano de recuperação gradual e sustentável que, ao longo de sete anos, conseguiu restabelecer o poder de compra perdido desde a década de 1970, demonstrando que é possível aliar justiça social com estabilidade macroeconômica.
A nova política de salários-mínimos
A “Nova Política de Salários-Mínimos” entrou em vigor em dezembro de 2018 e foi marcada pelo primeiro aumento de dois dígitos da história: a cifra nacional—válida para todo o território que a Comissão Nacional de Salários-Mínimos (Conasami) designa como “Zona de Salário-Mínimo Geral” (ZSMG), que compreende a maior parte do país—foi de 16,2%. A exceção à regra nacional é a fronteira do norte. Nessa região, há uma zona de livre comércio que compreende 43 municípios que fazem divisa com os EUA e todos os municípios do estado da Baixa Califórnia, a “Zona Livre da Fronteira Norte” (ZLFG). Ali, em razão das particularidades econômicas, a partir de 1º de janeiro de 2019 o salário-mínimo aumentou 100%: em bom português, dobrou de valor.
A nova política de salários-mínimos foi implementada em duas fases. A primeira antecede o governo de López Obrador, tendo começado em 2016 com a aprovação de reformas constitucionais destinadas à “desindexação”. Durante a gestão de Enrique Peña Nieto, a inviabilidade de aumentar o salário-mínimo era defendida não só pelo setor empresarial, mas até mesmo por algumas vozes da classe trabalhadora, sob o argumento de que havia risco de desencadear uma espiral inflacionária. Havia algum fundamento nisso, já que elementos essenciais da economia mexicana estavam indexados ao valor do salário-mínimo, como multas, benefícios ligados ao Fondo Nacional de la Vivienda para los Trabajadores (Infonavit) e até mesmo determinados créditos privados. Além disso, diversos contratos coletivos previam aumentos salariais e de benefícios calculados com base no salário-mínimo.
Em consequência, a desvinculação desses pagamentos do salário-mínimo era fundamental para a retomada da valorização. Isso era defendido por governos locais e parlamentares de esquerda e por sindicatos. Após grande pressão social, em 2014, o governo da Cidade do México apresentou um documento elaborado em conjunto com diversos atores da sociedade civil que destacava, simultaneamente, a necessidade de valorização real e desindexação de pagamentos em geral do salário-mínimo. Um ano depois, uma frente de parlamentares progressistas liderada pelo Partido da Revolução Democrática (PRD) propôs formalmente a desindexação. Finalmente, em 2016, extinguiram-se todas as vinculações ao salário-mínimo, o que abriu caminho para o primeiro aumento real em décadas, ocorrido já no ano seguinte. Os dois aumentos registrados em 2017, no entanto, apesar de terem sido propagandeados pelo governo como “históricos”, foram ainda bastante acanhados: 3,2% e 4,7% em termos reais.
A segunda fase foi mais complexa, porque exigiu a efetiva tradução de estudos econômicos e anos de reivindicações e lutas sociais em uma política salarial bem-sucedida. A literatura econômica apresenta evidências de que aumentar o salário-mínimo de forma isolada pode ter repercussões negativas sobre o emprego. Isso aconteceu, por exemplo, no caso da Colômbia, onde a valorização foi grande e muitos pagamentos continuavam indexados ao salário-mínimo.4Carlos Arango e Angélica Pachón,(<)em(>) The Minimum Wage in Colombia: Holding the Middle with a Bite on the Poor(<)/em(>), Banco de la República, Borradores de Economía. Working Paper No. 280 (Bogotá: Banco de la República, 2004). William Maloney e Jairo Nuñez Méndez, “Measuring the Impact of Minimum Wages: Evidence from Latin America,” em Law and Employment: Lessons from Latin America and the Caribbean, eds. J. J. Heckman y C. Pagés (Chicago: University of Chicago Press, 2004), 109–30. Mas esse nem sempre é o caso. Em alguns países, como o Brasil, a política de valorização salário-mínimo não teve impactos significativos sobre o emprego.
No caso do México, a equipe econômica que planejava a política se debruçou sobre inúmeras simulações dedicadas a antecipar todos os cenários macroeconômicos possíveis. Como resultado, decidiu-se que, no primeiro ano, o melhor caminho duplicar o salário-mínimo para o território da ZLFN e aumentar o valor em 16,2% no restante do país. O aumento de 100% na fronteira do norte surpreendeu especialmente o setor empresarial, que imediatamente contestou a decisão sob o argumento de que uma valorização dessa magnitude poderia gerar pressões inflacionárias (ainda que o motivo verdadeiro, como em todos os países do mundo, provavelmente fosse tentar blindar os lucros). Quando foi criada pela Secretaria da Fazenda e Crédito Público e pela Presidência da República, além da duplicação do salário-mínimo, a ZLFN incluía também um pacote de incentivos fiscais, como reduções na tributação da renda e no imposto sobre valor agregado. O objetivo era fazer com que parte desses incentivos fiscais ao empresariado fossem repassados aos trabalhadores. Além disso, a experiência na ZLFN deveria servir como um controle para avaliar os impactos da nova política.
O plano para o norte era dobrar o salário-mínimo no primeiro ano e, nos próximos, para compensar a compressão salarial que resultaria do aumento inicial de 100%, adotar somente valorizações ligeiramente acima da inflação.5A compressão salarial é um fenômeno comumente observado quando o salário-mínimo cresce significativamente, porque todos os demais salários passam a ser “agrupados” em faixas mais próximas ao mínimo: já que as empresas são obrigadas a aumentar somente o piso salarial, para compensar esses custos, tendem a manter os demais salários iguais. Na maioria dos países, o fenômeno da compressão salarial tende a desaparecer após um ou dois anos. No resto do país, a ideia era aumentar o mínimo em 16,2% no primeiro ano—o que faria, pela primeira vez na história, com que seu valor ficasse acima da linha de pobreza—e, em seguida, promover aumentos anuais de cerca de 20%, com o objetivo de superar, ao final do sexênio, os 100% de valorização.
Passado o período, as estimativas do governo se mostraram corretas e o plano se revelou bem-sucedido. Apesar da forte inquietação do setor empresarial, já no primeiro ano os aumentos foram aprovados conforme a proposta inicial. E, para a surpresa de muitos, no período imediatamente posterior à duplicação do salário-mínimo na região norte em 2019 a inflação foi negativa e se manteve, nos meses seguintes, em patamares substancialmente mais baixos do que os registrados no restante do país. Esse dado afugentou definitivamente o mito de que aumentar o salário-mínimo necessariamente gera pressões inflacionárias.
Fatores de produção
Alguns elementos principais explicam a mudança no equilíbrio de forças entre trabalho e capital perante o Estado que favoreceu a implementação da nova política de salário-mínimo no México. O primeiro é o rigor técnico da nova Conasami, que ajudou a afastar argumentos sobre os efeitos negativos da elevação salarial não amparados por evidências, especialmente aqueles advindos de setores empresariais. Se, no passado, a Conasami foi uma entidade pouco dinâmica, nos últimos anos, se transformou na instituição pública mexicana mais ativa em termos de divulgação científica. O segundo é o despertar da classe trabalhadora e dos sindicatos que tanto impulsionou quanto foi impulsionado pelos avanços a passos largos da agenda trabalhista. O terceiro, enfim, é a vontade política e o apoio popular que permitiram a um governo de esquerda enfrentar diretamente os interesses da burguesia.
Os relatórios do Conselho da Conasami preencheram lacunas técnicas que impediam o avanço do debate público e de reformas institucionais trabalhistas tanto do lado dos sindicatos quanto do setor empresarial. Se, nos primeiros anos da nova política de salário-mínimo, o protesto de empresários ainda se embasava no risco inflacionário, na medida em que a inflação seguiu baixa ou até mesmo diminuiu em áreas com salário-mínimo mais alto, o argumento perdeu credibilidade. Igualmente, o argumento de que aumentar o piso salarial também aumenta o desemprego foi rebatido pelos dados: as pesquisas demonstraram que o mercado de trabalho mexicano é monopsonista e que o salário-mínimo não tem efeitos sobre o nível de emprego. O setor empresarial resistiu a cada um dos aumentos salariais em razão da elevação correspondente dos custos trabalhistas (ainda que se beneficiasse indiretamente do aumento do consumo), mas, em diversas ocasiões, a infinidade de pesquisas divulgadas pela Conasami convenceu até mesmo os empregadores sobre as vantagens de fortalecer o mercado doméstico por meio do aumento de renda dos trabalhadores.
No início da nova política, os sindicatos, diante de um debate público dominado pela ideia de que valorizações salariais poderiam desencadear demissões ou pressionar os preços, adotavam uma postura “tímida e cautelosa”, expondo preocupações que ecoavam aquelas dos empregadores. Ironicamente, apesar da experiência internacional demonstrar o efeito positivo de políticas semelhantes para a classe trabalhadora, os sindicatos pareciam ter mais medo da valorização salarial do que o próprio empresariado. Ao longo do tempo, no entanto, os sindicatos ficaram cada vez mais combativos, chegando a propor aumentos ainda maiores que a Conasami. A situação da classe trabalhadora mudou muito entre 2018 e 2025. A taxa de sindicalização dos trabalhadores formais saltou de 12% em 2018 para 12,8% em 2024, um aumento de quase um milhão de pessoas.6Encuesta Nacional de Ocupación y Empleo (ENOE) feita pelo Instituto Nacional de Estadística y Geografía (INEGI). Além disso, hoje, todos os movimentos sindicais (inclusive tradicionais corporativistas e pelegos) são favoráveis à política de aumento do salário-mínimo. Entre os representantes de classe, formou-se também um consenso favorável ao aumento dos dias de férias, à melhora do sistema de proteção social e à redução da jornada de trabalho.
Por fim, um aspecto fundamental dessa virada foi a vitória de Andrés Manuel López Obrador, que chegou à Presidência em 2018. López Obrador não tinha dúvidas sobre a necessidade de mudanças radicais no mercado de trabalho e nas condições de emprego no México. Além de o governo contar com quadros da classe trabalhadora em posições destacadas, durante as negociações da nova política de salário-mínimo com empresários e sindicatos, o presidente, ao lado do Ministério do Trabalho e da Conasami, interveio em múltiplas ocasiões para inclinar a balança a favor de aumentos salariais mais expressivos.
Concentração no mercado de trabalho
A política de salário-mínimo é alvo de grandes controvérsias no debate econômico em todo o mundo. Desde o artigo de Card e Krueger,7David Card e Alan B. Krueger, (<)em(>)“Minimum Wages and Employment: A Case Study of the Fast-Food Industry in New Jersey and Pennsylvania,” American Economic Review(<)/em(>) 84, no. 4 (1994): 772–793. pesquisas empíricas se dividem quanto à determinação dos efeitos do aumento do salário-mínimo sobre o nível de emprego. Há estudos demonstrando efeitos negativos, positivos e neutros. Ainda que haja algum consenso sobre o impacto positivo de políticas de salário-mínimo na renda dos trabalhadores, potenciais efeitos adversos sobre o emprego continuam em questão.
Não faltaram economistas na tentativa de entender essas inconsistências empíricas e formular hipóteses para explicá-las. Há três abordagens mais comuns: métodos econométricos tentam avaliar o impacto e a relevância da política de salário-mínimo sobre as pessoas afetadas; métodos jurídicos analisam as formas de aplicação da legislação trabalhista; outros esforços de pesquisa tentam medir os diferentes efeitos para o emprego formal e informal. Mais recentemente, novos trabalhos vêm explorando o efeito dessas políticas em mercados de trabalho monopsonistas.8Sylvia A. Allegretto, Arindrajit Dube e Michael Reich, “Do Minimum Wages Really Reduce Teen Employment? (<)em(>)Accounting for Heterogeneity and Selectivity in State Panel Data(<)/em(>),” (<)em(>)Industrial Relations(<)/em(>) 50, no. 2 (2011): 205–240. Sylvia Allegretto, Arindrajit Dube, Michael Reich e Ben Zipperer, (<)em(>)Credible Research Designs for Minimum Wage Studies(<)/em(>), IZA Discussion Paper No. 7638 (Bonn: Institute of Labor Economics, 2013). José Azar, Emiliano Huet-Vaughn, Ioana Marinescu, Bledi Taska e Till von Wachter, (<)em(>)Minimum Wage Employment Effects and Labor Market Concentration(<)/em(>), NBER Working Paper No. 26101 (National Bureau of Economic Research, 2019). Luis Felipe Munguía Corella e Marco Antonio Gómez Lovera, “The Minimum Wage Impact on Poverty in Mexico” (2023), disponível em SSRN: https://ssrn.com/abstract=4626139 ou(<)a href='about:blank'(>) http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.4626139(<)/a(>)
Diversas pesquisas já analisavam o caso mexicano, mas, desde a nova política de salário-mínimo, o país passou a ganhar ainda mais atenção. Um dos aspectos mais interessantes das mudanças recentes no México é que o salário-mínimo vem impactando uma parcela cada vez maior da população trabalhadora: 13,3% em 2019, 24,3% em 2020, 27,8% em 2021, 29,4% em 2022, 28,8% em 2023 e 38,6% em 2024. Isso significa que ele está cada vez mais próximo do salário médio. Uma das formas de medir a grandeza de determinado piso salarial é dividir o salário médio pelo salário-mínimo (Índice de Kaitz). A figura 1 compara o resultado entre países da América Latina. O México está no meio da tabela, abaixo de Colômbia, Bolívia, El Salvador, Argentina, Equador, Paraguai, Honduras e Guatemala.
Os dados são da OIT e incluem o setor informal em todas as economias analisadas. Isso implica que o indicador tende a ser alto, já que o salário médio é mais baixo devido à informalidade, mas trabalhadores informais não recebem o salário-mínimo. É por isso que países como Guatemala e Honduras têm indicadores tão altos: o piso salarial é alto, mas a fiscalização é fraca, de modo que há muitos trabalhadores que ganham menos que um salário-mínimo.

No México, as pesquisas tendem a focar nos trabalhadores formais, para quem o salário-mínimo é quase sempre garantido por lei. No setor formal, em média, somente 0,5% dos trabalhadores ganham menos que o salário-mínimo. Estudos recentes seguem reforçando que essa política salarial não tem impacto sobre o nível de emprego. Minha explicação para isso é a alta concentração do mercado de trabalho no país.
O índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) permite calcular os efeitos da concentração no mercado de trabalho sobre salários e emprego, bem como o efeito heterogêneo do salário-mínimo a depender do grau de monopsonia verificado em cada caso.9Esses dados resultam de um artigo ainda em elaboração por mim e por Gómez Lovera. O HHI revela o grau de concentração em níveis municipal e setorial. O índice varia de 0, quando há concorrência perfeita no mercado, a 1, quando há uma única empresa que concentra todos os empregos. O cálculo para o México demonstra essa alta concentração: o HHI no país é de 0,81, em comparação com 0,58 para o caso dos EUA.10Luis Felipe Munguía Corella, “Minimum Wages in Monopsonistic Labor Markets,”(<)em(>) IZA Journal of Labor Economics (<)/em(>)9, no. 7 (2020): 1–28. A figura 2 mapeia esse fenômeno em todo o país: quanto mais vermelho é um município, mais concentrado é seu mercado de trabalho; quanto mais verde, mais competitivo.

Os efeitos da monopsonia sobre o mercado de trabalho têm sido alvo de extensa investigação teórica.11Alan Manning, (<)em(>)Monopsony in Motion(<)/em(>) (Princeton: Princeton University Press, 2003), Card e Krueger (1994). Nos achados de Card e Krueger, há quatro principais conclusões. Primeiro, uma vez que as empresas têm mais poder de negociação e capacidade de otimizar custos, os salários tendem a ser mais baixos. Segundo, porque os salários no mercado são mais baixos, a oferta de trabalho diminui, ou seja, o emprego tende a ser menor. Terceiro, as empresas costumam apresentar taxas de lucro extraordinárias. E quarto, a produtividade do trabalho e o salário médio deixam de estar associados: a produtividade aumenta sem implicar um aumento salarial correspondente para os trabalhadores. A mesma linha teórica diz que, em mercados monopsonistas, é possível que aumentos no salário-mínimo impactem positivamente o emprego, já que as empresas tendem a precisar de mais trabalhadores para aumentar a produção e, assim, compensar o custo trabalhista provocado por salários maiores.
Cada uma dessas premissas teóricas pode ser debatida à luz do caso mexicano. As duas primeiras afirmam que emprego e salários tendem a ser menores quando há mais concentração. Com base no HHI, nossas estimativas indicam que um aumento de 10% na concentração implica uma redução de 4,75% do emprego total, 5,54% do emprego de jovens e 5,1% do emprego de mulheres, além de uma queda de 0,51% do salário médio.
A terceira premissa teórica se refere à tendência de que as empresas registrem taxas de lucro extraordinárias. Em 2021 (data dos últimos dados disponíveis para todos os países), no México, o pagamento ao capital do total de valor econômico agregado era de 66%, enquanto o trabalho recebia apenas 27%.12A somatória não atinge 100% em razão do pagamento de impostos. O contraste com outros países é impressionante: nos EUA, o capital recebia 42% e o trabalho 54%. Mesmo em economias mais díspares, como o Chile e a Colômbia, a renda do trabalho representava, respectivamente, 37% e 34% do total, valor ainda muito superior ao mexicano.

Enfim, a quarta premissa, que sugere que a produtividade tende a se desvincular do salário médio, também é empiricamente observada no caso mexicano. A elevada taxa de lucro das empresas mexicanas se deve principalmente à diferença entre produtividade e salários. Em um mercado perfeitamente competitivo, a produtividade do trabalho deveria acompanhar o salário médio, mas, se o grau de monopólio é alto, a diferença entre as duas variáveis aumenta. No caso do México, entre 1980 e 2025, a produtividade no setor industrial aumentou mais de 160%, enquanto o salário cresceu apenas 13,2% (um crescimento fortemente relacionado à política de salário-mínimo adotada nos últimos seis anos).

Demonstrada a existência e os efeitos negativos do monopsônio para a classe trabalhadora mexicana, falta discutir o impacto da política de salário-mínimo sobre o emprego no país. Nossa pesquisa indica que, enquanto os efeitos do salário-mínimo sobre o emprego são neutros em mercados competitivos; em mercados monopsonistas, há um efeito positivo bastante relevante. Um crescimento de 100% do salário-mínimo em monopsônios aumenta o emprego em 69,7% a mais do que em mercados competitivos. Ainda, enquanto um crescimento de 100% do salário-mínimo se traduz, em mercados competitivos, em um aumento correspondente do salário médio de 44%; a cifra para os monopsônios é de 54%—dez pontos percentuais a mais.
A enorme concentração dos mercados de trabalho no México confere às empresas um poder assimétrico na determinação dos níveis salariais. Políticas trabalhistas de valorização do salário-mínimo, fortalecimento da democracia sindical e redução da informalidade são essenciais para equilibrar o poder entre capital e trabalho—e ainda há muito a ser feito.
Salário-mínimo, desigualdade e equilíbrio de poder
Enquanto teve impactos socioeconômicos extremamente positivos para a classe trabalhadora, especialmente para seus setores mais vulneráveis, o aumento do salário-mínimo no México não desencadeou pressões inflacionárias e nem afetou o emprego. Há um persistente mito na economia mexicana de que poucas pessoas realmente recebem o salário-mínimo (em contradição com o argumento, portanto, de que aumentar o piso legal traria riscos inflacionários). Mas o número de trabalhadores que receberam reajustes salariais após a nova política de valorização do salário-mínimo demonstra que esse instrumento é, na verdade, bastante abrangente.
O aumento mais recente beneficiou 8,4 milhões de trabalhadores registrados pelo IMSS.13Conasami,(<)em(>)“Propuesta de fijación del Salario Mínimo 2025(<)/em(>)” (2024), disponível em: https://www.gob.mx/cms/uploads/attachment/file/960834/Propuesta_de_fijaci_n_2025.pdf. Desde 2018, o salário médio dos trabalhadores registrados pelo IMSS cresceu 25,6% em termos reais. Isso impulsionou significativamente a demanda doméstica: estima-se que, em razão dessa política salarial específica, o poder de compra cresceu 3,6%. Esse efeito é ainda mais pronunciado em regiões como a ZLFN, onde o consumo é 10,5% maior do que o nível registrado no restante do país, refletindo a relação direta entre salário e poder de compra.14Ibid.
A nova política de salário-mínimo também reduziu a pobreza: dos 5,1 milhões de mexicanos que saíram da pobreza entre 2018 e 2022, 4,1 milhões mudaram de condição exclusivamente em razão de melhorias salariais. Uma vez que a maioria das famílias do país depende da renda do trabalho formal ou informal para sobreviver, o salário-mínimo é um importante mecanismo redistributivo. Os aumentos recentes não apenas atenuaram o grau de insegurança alimentar enfrentado pelas famílias mais pobres, mas facilitaram o acesso a serviços básicos, como saúde e educação.15Luis Felipe Munguía Corella e Marco Antonio Gómez Lovera, “The Minimum Wage Impact on Poverty in Mexico” (2023), disponível em SSRN: https://ssrn.com/abstract=4626139 o(<)a href='http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.4626139'(>) http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.4626139(<)/a(>)
A política adotada desde 2018 também contribuiu para reduzir desigualdades históricas. Desde o início do processo de valorização, trabalhadores de baixa renda da ZLFN registraram aumentos de 204,6%, enquanto a cifra para as demais regiões foi de 115%. Ao longo dos anos, isso implicou uma redução da desigualdade salarial de 19,7%. A diferença salarial entre homens e mulheres também caiu significativamente entre 2019 e 2024: a redução média foi de 29% e, em municípios com alta concentração de mulheres em situação de pobreza, o número chega a 66%.16Ibid.
O progressivo aumento do salário-mínimo ao longo dos últimos sete anos permitiu uma recuperação significativa do seu poder de compra: 133,6% a nível nacional e 251,8% na ZLFN. Mesmo assim, ainda há desafios. Três deles se destacam. O primeiro é elevar o salário-mínimo a um nível verdadeiramente digno, que cubra não apenas necessidades básicas, mas garanta um padrão de vida adequado para todas as famílias trabalhadoras, o que equivale a, pelo menos, 2,5 cestas básicas. A Conasami planeja alcançar essa meta—que inclui também dependentes—até 2030. No México, uma família típica é composta por duas pessoas que trabalham e outras duas economicamente dependentes. Por isso, a proposta é cobrir não apenas duas cestas básicas, mas também um adicional de 0,5 que permita às famílias não só superar a pobreza, mas também gastar mais com educação e bem-estar. Para atingir a meta, estão previstos aumentos anuais de cerca de 12,4% (assumindo um patamar anual de inflação de 3,5%) para os próximos cinco anos. De acordo com essa trajetória, o salário-mínimo nacional alcançaria, até o fim do período, o valor de 500 pesos por dia (cerca de 15.220 pesos por mês).
O segundo desafio é atualizar os salários-mínimos profissionais, destinados a garantir uma renda básica para profissões sem representação sindical ou organização trabalhista, bem como para empregos precários, sem contratos formais ou com salários particularmente baixos. Atualmente, a Conasami tem 61 salários-mínimos profissionais em sua lista, que está consideravelmente defasada. Em resposta, o governo vem trabalhando com representantes trabalhistas e empresariais ao longo de 2025 para chegar a um acordo que permita a atualização e adequação da lista à realidade atual do mercado de trabalho mexicano.
O desafio final é transformar a Conasami em uma instituição nacional com papel mais amplo no combate ao monopsônio. Além de fixar o salário-mínimo, a Conasami seria responsável por monitorar o mercado de trabalho e erradicar práticas salariais abusivas e contratos que restrinjam a concorrência. Isso ajudaria a equilibrar a relação de poder entre capital e trabalho. A atual proposta do governo nesse sentido é transformar a Conasami em um Instituto Nacional de Salários-Mínimos, responsável por monitorar as dinâmicas do mercado de trabalho em níveis municipal e setorial e com autoridade para inspecionar empresas, impor o cumprimento de normas trabalhistas e punir empregadores que adotem práticas trabalhistas abusivas.
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