29 de outubro de 2025

Análises

Crescimento politicamente limitado

Gastos fiscais e recuperação econômica no Brasil em 2023-24

Apesar da maré contrária da alta de juros aqui e nos Estados Unidos, a economia brasileira vem se recuperando de um período prolongado de estagnação. Depois de crescer, em média, 0,2% ao ano entre 2015 e 2022, o PIB brasileiro cresceu uma média de 3,3% ao ano em 2023 e 2024—a primeira metade do terceiro mandato presidencial de Lula. Ainda que esse seja um desempenho modesto em relação às enormes necessidades sociais de um país em desenvolvimento,1Para que os países em desenvolvimento alcancem o PIB per capita dos países desenvolvidos, não só o PIB, mas também o PIB per capita, devem crescer mais rapidamente por longos períodos de tempo. Em razão disso, declarações do governo de que o Brasil deve crescer na mesma taxa que o mundo são obviamente insatisfatórias. a cifra supera expectativas. As exportações foram um fator positivo, sem dúvidas, mas a maior parte do crescimento recente é resultado de algo que o próprio governo reluta em reconhecer: a política fiscal expansionista, que tem compensado forças de contração.

Há motivos para comemorar esse resultado. Em primeiro lugar, o desempenho do PIB representa uma grande melhora em relação ao passado recente do país. Entre 2015 e 2022, a austeridade fiscal e as reformas neoliberais reduziram a demanda doméstica e levaram à estagnação do PIB: ao final de 2022, o mercado interno era menor do que em 2014. Mas, desde 2023, a economia brasileira voltou a crescer—o que impulsionou também o investimento privado, que cresceu mais do que o próprio PIB em 2024. Além disso, devido a rápidas mudanças na dinâmica demográfica, a taxa de crescimento do PIB per capita na primeira metade do terceiro mandato de Lula (2,9% ao ano) foi praticamente igual àquela registrada entre 2003 e 2010 (3% ao ano), durante os primeiros—e relativamente prósperos—governos do presidente.2Recentemente, o crescimento populacional caiu bastante, de uma média de 1% durante os dois primeiros mandatos de Lula (2003-2010) para 0,4% nos últimos anos.

A tabela abaixo resume os principais componentes da demanda agregada no Brasil desde 2003.

Para além das exportações, grande parte do recente desempenho positivo da economia brasileira foi resultado de uma política fiscal expansionista—ainda que essa expansão não tenha sido exatamente intencional. As prioridades de política econômica anunciadas pela terceira gestão de Lula são uma política monetária guiada pela meta de inflação e uma política fiscal orientada à estabilização da razão dívida-PIB. Apesar disso, em 2023-24, uma conjunção peculiar de eventos acabou conduzindo a política fiscal à expansão. Como será detalhado a seguir, a transição de Bolsonaro para Lula abriu uma janela de oportunidade para que o governo aumentasse o nível da demanda agregada—ainda que a orientação da Fazenda para conter o crescimento da dívida pública, ao lado da taxa de juros, muito mais alta do que em qualquer momento da última década, atuassem em sentido contrário.3Vale lembrar que a razão dívida-PIB não é um problema por si só, dado que a dívida é paga na moeda doméstica de acordo com as taxas de juros definidas, sobretudo, pelo Banco Central do Brasil.

O ministro da Fazenda Fernando Haddad já argumentou que o crescimento da economia brasileira pode continuar sem maiores expansões do gasto público, sustentado pelo consumo das famílias e pelo investimento privado—como se esses fatores não dependessem da política fiscal. Enquanto isso, o Banco Central (BC) recorrentemente culpa a política fiscal expansionista por um suposto superaquecimento da economia para justificar aumentos da taxa básica de juros. Ao que tudo indica, o governo se baseia na teoria de que o PIB potencial cresce independentemente da demanda agregada (e a uma taxa de apenas 2,5%). O endurecimento das políticas fiscal e monetária é justificado por esses fatores e por alegações de que o mercado de trabalho estaria superaquecido simplesmente porque a taxa de desemprego está baixa e os salários reais estão crescendo—apesar do enorme subemprego e informalidade registrados no país.

Em geral, o impacto da expansão fiscal sobre a demanda foi mais forte do que os efeitos contracionistas de uma política monetária mais restritiva que, de fato, teve resultados negativos, ainda que limitados, especialmente sobre o investimento residencial. É provável que o impacto das taxas de juros mais altas tenha sido mais do que compensado pelas variações na taxa de câmbio, que contribuíram para o aumento dos salários reais e do consumo—este último também impulsionado pela política de valorização do salário mínimo e por taxas de desemprego mais baixas. Assim, mais do que empréstimos mais caros e austeridade pública, foram uma moeda mais forte e gastos do governo que estiveram por trás do crescimento brasileiro.

Para além da demanda: condições externas e política monetária

Desde 2022, o aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve dos Estados Unidos aumentou a pressão sobre os balanços de pagamentos de muitas economias emergentes e dificultou a sustentação de políticas de estímulo à demanda interna.4Serrano, F., Summa, R., e Aidar, G. (2021). Exogenous interest rate and exchange rate dynamics under elastic expectations. (<)em(>)Investigación económica(<)/em(>), 80(318), 3-31. O Brasil, entretanto, continuou a contar com condições financeiras externas relativamente favoráveis. Desde meados dos anos 2000, apesar dos persistentes déficits em conta corrente, o país recebeu consideráveis fluxos de capital e acumulou um grande estoque de reservas internacionais. A razão entre a dívida externa de curto prazo e as reservas cambiais permanece abaixo de 30% e, na última década, o total da dívida externa correspondeu, em média, a cerca de 71% das reservas, ou seja, a posição externa do país se manteve relativamente confortável. 

Um aspecto fundamental da melhoria nas contas externas brasileiras tem sido o processo de “desdolarização” do passivo externo, de modo que boa parte da dívida externa do país (títulos públicos e ações detidas por não-residentes) é denominada em moeda nacional, transferindo o risco cambial para os credores. Isso permitiu ao Brasil financiar significativos déficits em conta corrente em 2023-24 sem criar novas vulnerabilidades.  

A estrutura dos déficits em conta corrente do país reflete a saída de lucros, dividendos e juros, que superam o superávit comercial. O equilíbrio do balanço de pagamentos exige que os déficits sejam financiados por fluxos de financiamento e capital externos, que reagem ao diferencial de taxa de juros.5Para uma explicação detalhada: Summa, Ricardo; Haluska, Guilherme e Serrano, Franklin. Actual government spending and the resumption of growth in Brazil: 2023-24. Working paper (2025).Em 2023, a redução dos déficits em conta corrente e o aumento do diferencial de juros contribuíram para que a taxa de câmbio nominal se apreciasse em cerca de 10%, mas ambos os fatores foram revertidos em 2024: com a redução do diferencial de juros e um aumento das importações, puxado pelo crescimento econômico e pelo aumento dos investimentos privados, o câmbio nominal se depreciou 10% entre janeiro e setembro. No final do ano, a taxa tinha desvalorizado em mais 13%.6 Isso pode ser explicado por três fatores: 1) o setor privado normalmente faz as remessas de lucros e dividendos para o exterior em dezembro; 2) uma “fuga ao dólar” causada pelas incertezas em relação às eleições nos EUA; e 3) a demora do BC em interferir no câmbio. Ver Summa, Haluska e Serrano (2025), citado acima. Isso levou o BC a vender dólares e aumentar significativamente a taxa básica de juros, o que novamente aumentou o diferencial de juros e ajudou o real a se valorizar.

Uma vez que o Brasil é um tomador de preços na maior parte dos mercados internacionais, o modo como o BC administra a taxa de câmbio é importante para entender a dinâmica inflacionária. Os custos nominais de produção no país dependem fortemente dos preços de bens comercializados em dólares. Assim, tanto a evolução dos preços internacionais quanto as variações da taxa de câmbio nominal são importantes fontes de inflação de custos para o país.7Outros fatores que afetam os custos de produção são os preços controlados e os salários. Isso explica por que a política monetária foi tão restritiva em 2023-2024.

A política monetária dos últimos anos foi substancialmente mais contracionista do que em 2015-2022, quando a economia estava estagnada. Em 2021-2022, o aumento dos preços das commodities em dólares e a forte depreciação do real contribuíram para levar a inflação ao patamar de 12%. O BC reagiu aumentando a taxa básica de juros, que atingiu 13,75% no final de 2022. As figuras abaixo apresentam, respectivamente, a taxa de inflação, a meta de inflação (e seus limites mínimo e máximo) e a taxa básica de juros no Brasil de janeiro de 2015 a janeiro de 2025; e a taxa de juros nominal, ajustada pela inflação efetiva, para mostrar o comportamento da taxa de juros real ex-post de 2003 a 2024. Ela revela que a taxa de juros real atual é muito mais alta que a média observada em 2011-2014 e 2015-2022.8Seguimos a periodização proposta em Franklin Serrano and Ricardo Summa, “Aggregate Demand and the Slowdown of Brazilian Economic Growth from 2011-2014,” Center for Economic and Policy Research, August 2015. (<)a href='https://cepr.net/documents/publications/Brazil-2015-08.pdf'(>)https://cepr.net/documents/publications/Brazil-2015-08.pdf(<)/a(>); e Haluska, G., Summa, R., & Serrano, F. (2025). The bridge to stagnation: government expenditure cap, reforms and the fall in the business investment share in Brazil (2015-2022), Working Paper IPEBerlin N. 247. O período de 2003-2010 corresponde aos dois primeiros mandatos de Lula, no qual as taxas de crescimento do PIB eram maiores sobretudo por causa da política fiscal expansionista, apesar de uma taxa real de juros mais alta. O período 2011-2014 corresponde à desaceleração do crescimento econômico durante o primeiro mandato de Dilma, no qual houve uma tentativa de controlar a expansão fiscal e compensá-la com o aumento do gasto privado, que resultaria de uma taxa de juros mais baixa e da desvalorização do câmbio. O terceiro período, 2015-2022, corresponde à fase das políticas de austeridade que foram iniciadas no segundo mandato de Dilma (interrompido pelo impeachment de 2016) e continuadas pelos governos Temer e Bolsonaro, levando a uma elevada taxa de desemprego e à queda dos salários reais e da inflação. Nesse contexto, a queda da taxa de juros real estava associada à estagnação do PIB. Finalmente, o período de 2023-2024 é o foco deste artigo.

Durante 2023, os preços internacionais das commodities caíram e o real se valorizou, enfraquecendo as pressões inflacionárias externas e permitindo que o BC começasse a reduzir a taxa básica de juros, que atingiu 10,5% em meados de 2024. No entanto, à medida que a taxa de câmbio nominal se depreciou novamente em 2024,9Para mais detalhes sobre as causas da desvalorização do real em 2024: Marins, N., Summa, R., e Consul, D. (2025). The behavior of the nominal exchange rate between the Brazilian Real and the dollar in 2024. (<)a href='https://nakedkeynesianism.blogspot.com/2025/03/the-behavior-of-nominal-exchange-rate.html'(>)Naked Keynesianism blogpost(<)/a(>). a inflação—sobretudo de alimentos e de bens tradable—aumentou, forçando o BC a elevar a taxa básica de juros mais uma vez.

A alta da inflação brasileira que levou ao pico de 12% no início de 2022 resultou de choques de custo, especialmente nos bens comercializados internacionalmente. Com a inflação superando o crescimento dos salários nominais, os trabalhadores sofreram com a queda do salário real. No ano seguinte, a inflação já tinha voltado à meta, o que mais uma vez foi reflexo de fatores de custo, e não da demanda agregada. A prova disso é que, em 2023, à medida que o desemprego caiu, o salário mínimo aumentou e o PIB voltou a crescer, a inflação seguiu em queda. Em 2024, enquanto o real se desvalorizava e os preços internacionais aumentavam levemente em relação ao ano anterior, a inflação chegou a 4,8%, patamar quase igual ao de 2023. A apreciação do câmbio e o declínio do preço internacional das commodities, não a demanda agregada, têm sido os fatores determinantes do nível de preços no Brasil. 

A diferença crucial entre as baixas taxas de juros reais e a estagnação antes de 2021 e a situação atual, em que uma elevada taxa de juros convive com um crescimento lento, é a meta de inflação. Em 2018, a meta era de 4,5% com um limite máximo de 6%. Desde então, a meta foi progressivamente reduzida, chegando a 3% com um limite máximo de 4,5% em 2024. Embora a inflação de 2024 tenha sido quase igual à registrada em 2023, a meta não foi cumprida, e o BC aumentou a taxa de juros mais uma vez.

A média dos salários reais no emprego formal, apesar de ter crescido 1,7% ao ano em 2023-2024, continua cerca de 3% menor que em 2014, ano anterior ao início do período de estagnação econômica.10É importante notar que a redução gradual da meta de inflação foi acompanhada pela estagnação e, posteriormente, redução dos salários reais. A redução gradual das metas de inflação esteve associada à estagnação e, posteriormente, à queda dos salários reais. Em resposta a essas mudanças, as taxas de juros reais aumentaram. Por que, nesse caso, o crescimento brasileiro foi retomado no terceiro mandato de Lula?

Decompondo a demanda agregada

As exportações são apenas uma parte da resposta. Apesar do câmbio real mais valorizado em 2023-2024, as exportações cresceram 5,9% ao ano, superando as taxas de crescimento do PIB e do comércio mundiais (3,3% e 1,9%, respectivamente). O desempenho das exportações foi especialmente impressionante em 2023, quando o Brasil se beneficiou de uma safra excepcionalmente boa e, em razão da guerra na Ucrânia, do aumento das exportações de petróleo. No mesmo período, as importações cresceram em média 6,5%, sobretudo devido à vigorosa—embora tardia—recuperação do investimento privado em 2024.

No entanto, o Brasil é um país de dimensões continentais e as exportações correspondem a uma parcela relativamente pequena de seu PIB—cerca de 18% em 2023-2024. O setor externo, sozinho, não é capaz de induzir a altas taxas de crescimento da demanda agregada e do PIB.11Freitas, F. N., & Dweck, E. (2013). The pattern of economic growth of the Brazilian economy 1970–2005: a demand-led growth perspective. In (<)em(>)Sraffa and the Reconstruction of Economic Theory: Volume Two: Aggregate Demand, Policy Analysis and Growth(<)/em(>) (pp. 158-191). London: Palgrave Macmillan UK; Haluska, G. (2023). A economia brasileira no século XXI: uma análise a partir do modelo do Supermultiplicador Sraffiano. (<)em(>)Economia e Sociedade(<)/em(>), 32(2), 297-332; Campana, J. M., Vaz, J. E., Hein, E., & Jungmann, B. (2024). Demand and growth regimes of the BRICs countries–the national income and financial accounting decomposition approach and an autonomous demand-led growth perspective. (<)em(>)European Journal of Economics and Economic Policies(<)/em(>), 21(1), 17-41. Ao decompor a demanda agregada entre o setor externo e a demanda doméstica, observamos que as exportações líquidas contribuíram, em média, com 1,1 ponto percentual do crescimento anual do PIB em 2023-2024, enquanto o mercado interno contribuiu com 2,2 pontos percentuais. Em outras palavras, dois terços do crescimento recente podem ser atribuídos à expansão da demanda interna.

O papel da política fiscal

Com esse contexto em mente, podemos voltar à discussão de como a política econômica levou a essa expansão do mercado interno. Em 2023, o Brasil abandonou o teto de gastos aprovado pelo governo Temer e pôde gastar acima do teto. Em 2024, o governo Lula aprovou uma nova regra fiscal visando limitar o crescimento dos gastos públicos entre 0,6 e 2,5%, e estabelecendo uma proporção entre o superávit primário e o PIB.12O teto de gastos do governo Temer foi aprovado como uma Emenda à Constituição e impunha taxa zero de crescimento dos gastos reais do governo federal. Embora o teto tenha reduzido consideravelmente o crescimento dos gastos do governo, o mesmo nunca chegou a zero, como demonstramos em Haluska et al. (2025), citado anteriormente. A nova regra fiscal, estabelecida em 2023, foi aprovada como Lei Complementar.

Passando dos arranjos institucionais e das regras fiscais à prática, o governo Lula retomou a política de aumento real do salário mínimo, que havia sido congelado em termos reais durante os governos Temer e Bolsonaro.13Durante o governo Temer, a regra de ajuste do salário mínimo permitia a possibilidade de aumentos reais ao estabelecer que o reajuste seguiria a taxa de inflação e a taxa de crescimento do PIB de dois anos atrás. Caso essa última fosse negativa, o salário mínimo seria reajustado apenas pela inflação. Como o PIB caiu tanto em 2015 como em 2016, o salário mínimo não teve aumento real nos dois anos do governo Temer (2017 e 2018). Já no governo Bolsonaro, a regra de reajuste do salário mínimo estabelecia que os aumentos seguiriam apenas a taxa de inflação, impedindo aumentos reais. Isso é importante para a política fiscal porque muitas das transferências diretas às famílias são indexadas ao salário mínimo, que desde 2023 aumentou cerca de 3% ao ano (em termos reais). Combinado ao envelhecimento da população e ao correspondente incremento no número de aposentados, o aumento do salário mínimo traduz-se diretamente em um crescimento substancial das transferências diretas do governo às famílias. Por si só, isso não seria suficiente para elevar o crescimento dos gastos do governo federal para além do novo limite de 2,5% adotado em 2024. Ainda assim, durante 2023, o limite de gastos foi suspenso pela chamada “PEC da Transição”, aprovada para garantir o funcionamento do governo federal durante a transição entre a antiga e a nova regra fiscal.

Além disso, na última semana de 2023, o governo federal liberou o pagamento de pouco mais de R$ 90 bilhões em precatórios, o que aumentou ainda mais as transferências do setor público e se refletiu no aumento do consumo das famílias logo no começo de 2024.14Os precatórios são dívidas públicas estabelecidas por ordens judiciais. Em 2021, durante o governo Bolsonaro, foi aprovada uma lei limitando o valor total de pagamento de precatórios a cada ano, atrasando os pagamentos que excederem esse limite para liberar espaço fiscal para outros gastos. Em 2022, o Supremo Tribunal Federal declarou que o limite era inconstitucional. Como resultado, em 2023 o governo Lula teve que pagar tanto as dívidas novas quanto aquelas deixadas pelo governo anterior, o que aumentou significativamente o gasto fiscal daquele ano. Pouco depois, foram aprovados gastos adicionais para responder a emergências climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul e os incêndios florestais em várias regiões do país. Pelo desenho da regra adotada em 2024, nem o pagamento dos precatórios nem os gastos emergenciais foram considerados no cálculo da meta fiscal.

Por fim, o aumento dos gastos públicos também foi impulsionado pelos governos estaduais e municipais, cujos gastos cresceram em função do aumento das receitas e das eleições municipais de 2024.15IPEA (2025) Carta de Conjuntura n. 66, jan./mar. 2025. BOX 3: O comportamento recente dos gastos dos entes subnacionais. Além disso, houve uma expansão dos investimentos das estatais da ordem de 28,6% ao ano, o que, novamente, não integra o cálculo da meta fiscal. Como resultado, o consumo total do governo cresceu, em média, 2,8% ao ano em 2023 e 2024, enquanto o investimento público total aumentou 9% ao ano e as transferências às famílias cresceram 5,4% ao ano. No fim das contas, em comparação com 2015-2022, os anos de 2023 e 2024 podem ter registrado uma taxa de juros real maior, mas foram marcados por uma política fiscal muito mais expansionista.

Demanda autônoma, consumo induzido e investimento privado

Além dos gastos públicos, é importante levar em conta os outros três componentes da demanda agregada: as despesas autônomas das famílias, o consumo induzido e os investimentos privados induzidos. O consumo induzido representa gastos com renda contratual (salários e remunerações) gerados por decisões empresariais relacionadas à retomada da produção. O investimento privado é considerado induzido porque as empresas normalmente só investem para ajustar a produção a níveis esperados de demanda efetiva (lucrativa). As despesas autônomas das famílias incluem gastos não condicionados por decisões produtivas das empresas, geralmente determinados pela criação de poder de compra a partir da concessão de crédito ou de gastos do governo.16Para uma discussão teórica do conceito de demanda autônoma e sua relação com as políticas macroeconômicas: Serrano, F., Summa, R., e Freitas, F. (2023). Autonomous demand-led growth and the supermultiplier: the theory, the model and some clarifications. (<)em(>)Instituto de Economia UFRJ Working Paper(<)/em(>). Por despesas autônomas das famílias, portanto, entendemos a soma do consumo autônomo e do investimento residencial, ambos sensíveis à taxa básica de juros e à disponibilidade de crédito, além do consumo financiado por transferências públicas. 

Como vimos anteriormente, a taxa de juros real, embora mais alta que a média histórica, sofreu uma pequena redução entre o final de 2023 e o começo de 2024. Além disso, o número de empregos formais aumentou consideravelmente (3,4% ao ano, em média, em 2023-2024), enquanto a informalidade caiu de 49,8% para 48,5%.17De acordo com dados da PNAD Contínua. Os trabalhadores do setor formal têm acesso facilitado ao crédito e obtêm financiamento a taxas mais baixas. Paralelamente, o governo federal lançou um programa de renegociação de dívidas, o Desenrola Brasil. Em conjunto, o crescimento do mercado de trabalho formal e a redução do endividamento das famílias contribuíram para o aumento do consumo autônomo das famílias—em 2023-2024, o consumo de bens duráveis cresceu em média 12,7% ao ano.

No que se refere ao investimento residencial, o governo federal retomou os subsídios ao financiamento habitacional para famílias de renda baixa ou média, por meio do programa “Minha Casa, Minha Vida”, lançado em 2009 durante o segundo governo Lula e extinto em 2019 por Bolsonaro. Mas isso não foi suficiente para compensar o aumento da taxa de juros: o investimento residencial caiu, em média, 1,8% ao ano em 2023-2024.

O consumo induzido das famílias também aumentou no período, à medida que o crescimento do PIB puxou o aumento dos salários reais, a taxa de desemprego caiu, o salário mínimo cresceu e a taxa de câmbio real se valorizou (o que, como já discutido, foi um efeito colateral da alta da taxa de juros). O salário real médio do setor formal cresceu cerca de 1,7% ao ano, como ilustra a figura abaixo. O rendimento real dos trabalhadores (tanto formais quanto informais) aumentou ainda mais, 4,8% ao ano, provavelmente porque, além do aumento dos salários, o crescimento do PIB puxou um aumento da renda dos trabalhadores autônomos. Assim, o consumo induzido das famílias cresceu tanto pelo aumento dos salários quanto pelo aumento do emprego.

Finalmente, nos resta discutir o comportamento dos investimentos privados. Depois de uma queda em 2023, os investimentos privados induzidos aumentaram muito mais que o PIB em 2024, crescendo 7,1%. Isso ilustra como as empresas investem para ampliar a capacidade produtiva em expectativa de uma demanda futura. Em 2023, as expectativas de crescimento econômico eram baixas, mas a recuperação econômica levou à revisão das estimativas.18Uma parte da queda dos investimentos privados em 2023 pode ser atribuída a um aumento temporário dos investimentos em 2021-2022, quando várias empresas anteciparam compras de caminhões, sobretudo porque sabia-se que, a partir de 2023, os preços dos caminhões aumentariam devido às novas regras sobre emissões de poluentes (IPEA, 2024; Haluska et al., 2025, citado acima). À medida que a continuidade do crescimento ficou mais clara, o investimento privado começou a subir19Como era de se esperar, devido ao mecanismo do acelerador flexível, cuja evidência empírica para o Brasil é apresentada e discutida em: Braga, J. (2020). Investment rate, growth, and the accelerator effect in the supermultiplier model: the case of Brazil. (<)em(>)Review of Keynesian Economics(<)/em(>), 8 (3), 454-466. e a recuperação da demanda agregada compensou a elevada taxa de juros real.

Crescimento puxado pela demanda e limitado pela política econômica

Recentemente, a hesitação do governo federal em defender a política fiscal expansionista e o crescimento do PIB se tornou ainda mais evidente. Em 2025, o reajuste do salário mínimo foi limitado aos mesmos 2,5% que recaem sobre o crescimento dos gastos públicos, com a justificativa de que era preciso segurar o volume das transferências do governo indexadas a ele. Desde 2022, os benefícios do Bolsa Família, que impactam o orçamento de 20 milhões de famílias, também foram congelados em termos nominais (uma redução real)—e propostas de reajustes têm sido rejeitadas pelo Congresso.20O último aumento nominal relevante do principal benefício do Bolsa Família foi feito durante o governo Bolsonaro, embora em 2023 tenha sido criado um benefício adicional aumentando as transferências em proporção ao número de crianças com menos de 6 anos.

A ideia de que os gastos públicos devem ser contidos para abrir espaço a um crescimento mais rápido liderado pelo setor privado, embora muito popular entre economistas brasileiros de diferentes correntes, não apenas é baseada em argumentos teóricos equivocados como levou à desaceleração da economia brasileira desde 2011 e à estagnação desde 2015.21Sobre a desaceleração: Serrano, F. e Summa, R. (2015). Aggregate demand and the slowdown of Brazilian economic growth in 2011-2014. Nova Economia, 25, 803-833. Sobre a estagnação: Haluska, G., Summa, R., e Serrano, F. (2025). The bridge to stagnation: government expenditure cap, reforms and the fall in the business investment share in Brazil (2015-2022). Working Paper No. 247/2025. O risco de adotar uma política econômica com essas características é evidente: se os atuais esforços para conter o crescimento dos gastos públicos forem bem-sucedidos, o crescimento econômico do país será, sem dúvida, reduzido.

Tradução: João Marcolin

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