4 de setembro de 2025

Análises

Esperança verde

Política industrial “made in México” em tempos de transição ecológica.

“Industrial policy is suddenly fashionable again; even those who once condemned it now claim they always supported it.” —Ha-Joon Chang1Em português: “A política industrial voltou a estar na moda; mesmo aqueles que antes a condenavam agora afirmam que sempre a apoiaram.”

Durante décadas, o México evitou adotar uma política industrial liderada pelo Estado, confiando que os mercados e a abertura comercial bastariam para impulsionar o desenvolvimento. Como resultado, a economia mexicana continua em uma posição difícil, com crescimento lento, uma dualidade produtiva estrutural e baixa capacidade de inovação. No entanto, com o lançamento do Plano México, o governo Claudia Sheinbaum promete alinhar produtividade, sustentabilidade e justiça social, com vistas a estabelecer as bases de uma política industrial verde duradoura como projeto de Estado.

Sheinbaum apresentou o Plano México pela primeira vez em janeiro de 2025, com o objetivo de mobilizar US$ 277 bilhões em investimentos nacionais e estrangeiros para um programa nacional de desenvolvimento. O plano, com treze metas, busca reduzir a pobreza e a desigualdade, gerar empregos e promover crescimento, pelo incentivo a setores estratégicos e adoção de uma agenda verde. Após a imposição de tarifas pelos EUA, Sheinbaum anunciou recentemente a aceleração das políticas propostas para fortalecer o mercado interno. Pelo papel do Estado significativamente ampliado na economia nacional, o Plano México representa um afastamento radical das políticas econômicas que governaram o México nas últimas quatro décadas.

A crise da dívida mexicana de 1982 marcou a virada para uma série de reformas neoliberais baseada no Consenso de Washington, que defendia a liberalização comercial, a abertura ao capital estrangeiro, a privatização e a disciplina fiscal. Seguindo essa lógica, assumiu-se que o Estado mexicano não deveria atuar para promover setores estratégicos e que as políticas industriais podiam causar distorções, instaurando a ideia de que “a melhor política industrial é não ter uma política industrial”. Algo muito diferente do que ocorreu entre 1940 e 1970, quando o país adotou políticas industriais ativas, baseando-se em um modelo de substituição de importações que promoveu a industrialização por meio de instrumentos como proteção tarifária, bancos de desenvolvimento e empresas públicas, o que levou a um crescimento real médio de 6% ao ano no período.2Banco de México, Crecimiento Histórico del PIB en México (1901-2020) https://www.banxico.org.mx/TablasWeb/informes-trimestrales/octubre-diciembre-2020/99B59D58-4537-4A19-A036-81D90F013EF1.html

O Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), assinado em 1994, consolidou o rompimento com tal perspectiva desenvolvimentista, ao priorizar a abertura comercial, o investimento estrangeiro direto (IED) e o crescimento voltado para a exportação. Essa estratégia apresentava os baixos salários locais como uma vantagem competitiva, e abandonou políticas coordenadas para gerar maior valor agregado, articular cadeias produtivas locais, impulsionar o uso de tecnologia e fortalecer a capacidade nacional. O TLCAN foi um mecanismo fundamental para consolidar a integração do México com a economia dos EUA, aprofundando a dependência estrutural do México em relação ao país vizinho.

Como resultado desse processo, houve uma migração dos setores tradicionais—como têxtil, calçadista, moveleiro e agricultura familiar—para as indústrias automotiva, aeroespacial, eletrônica e agroexportadora, dentre outras. Isso gerou uma estrutura produtiva dual: de um lado, os complexos industriais voltados para a exportação, integrados às cadeias globais, mas concentrados em processos de montagem com pouca participação nacional em engenharia e design; de outro, uma ampla rede de micro e pequenas empresas, presas na informalidade e com acesso limitado a financiamento, tecnologia e capital humano qualificado. Com a falta de políticas ativas para conectar fornecedores locais, incentivar a inovação e aumentar a sofisticação das exportações, os lucros obtidos com a competitividade dos “novos” setores não se espalharam para o restante da economia.

Consequentemente, a produtividade total ficou estagnada e o PIB cresceu menos de 2% ao ano entre 1990 e 2014,3Claudia Schatan, Transformación productiva, empleos y retos para la formación de capital humano en México, Fundación Friedrich Ebert Stiftung, México, diciembre de 2018, disponible en: https://library.fes.de/pdf-files/bueros/mexiko/15311.pdf ficando bem abaixo do necessário para reduzir a pobreza, diminuir as desigualdades salariais e sustentar um processo de convergência com países de renda média alta.

A política industrial remanescente

Na ausência de uma estratégia federal coerente, vários estados mexicanos—entre eles Querétaro, Nuevo León, Guanajuato, Jalisco e Aguascalientes—implementaram iniciativas próprias para articular clusters, atrair investimento estrangeiro e promover a formação de capital humano especializado. Com isso, Nuevo León e Querétaro se tornaram dois importantes laboratórios de política industrial no país.4Tijerina, W. (2019). Industrial development in Mexico: Policy transformation from below. Routledge. O primeiro, por meio de uma lei estadual de fomento e uma rede de clusters que hoje respondem por quase um décimo das exportações industriais mexicanas; quanto a Querétaro, os 18 anos de continuidade institucional na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Sustentável lhe permitiram crescer a partir do setor automotivo e se tornar líder nacional em aeronáutica. A lição é clara: os governos estaduais e municipais, mais próximos das empresas, universidades e trabalhadores, têm um papel crucial na articulação de fornecedores, no fomento à inovação e no aumento do conteúdo nacional das exportações. Essa experiência aponta que a construção de uma política industrial verde para o México deve se dar a partir de uma perspectiva subnacional, fortalecendo as competências técnicas e financeiras dos governos locais e coordenando as políticas e incentivos em torno de uma visão nacional de longo prazo.

Enquanto isso acontecia no México e na maioria dos países latino-americanos, em outras regiões do mundo, países como a Coreia do Sul, o Vietnã e a China implementaram políticas industriais sólidas e bem coordenadas que transformaram os sistemas produtivos, com empresas nacionais bem-sucedidas e competitivas em nível global, e geração de competências tecnológicas próprias. Entre 1980 e 2020, a China registrou um crescimento real médio de 9,2% ao ano, o Vietnã de 6,6% e a Coreia do Sul de 5,5%, enquanto o México alcançou apenas 2,2%. Hoje, diante de uma nova onda de reindustrialização verde, potências como a União Europeia, os Estados Unidos e o Brasil passaram a mobilizar bilhões de dólares em investimentos públicos, marcos regulatórios favoráveis e inovação tecnológica para liderar a transição ecológica.

Consequências do modelo mexicano

Nos últimos 24 anos, o PIB mexicano cresceu, em média, apenas 1,7% ao ano, enquanto a indústria—considerada historicamente o motor de expansão do país—cresceu a um ritmo ainda menor, de 1,5% entre 2000 e 2023. Consequentemente, o PIB per capita ficou praticamente estagnado, com uma variação média de apenas 0,5% ao ano.

Entre 1990 e 2022, a produtividade total dos fatores (PTF) da economia mexicana diminuiu, em média, 0,57% ao ano. Isso pode ser explicado, em grande parte, pela alta incidência de trabalho informal. Em 2021, 55,8% da população ocupada trabalhava informalmente, tendo contribuído com apenas 23% do PIB, enquanto os 44,2% restantes—em emprego formal—contribuíram com 76,3%.

Este baixo dinamismo produtivo restringe a geração de empregos de qualidade, perpetua a pobreza e amplia as disparidades salariais. Em 2022, 36,3% da população (46,8 milhões de pessoas) viviam em situação de pobreza multidimensional e 7,1% (9,1 milhões) em situação de pobreza extrema; além disso, 43,5% não alcançavam a renda mínima necessária para pagar a cesta básica. Com um crescimento tão fraco, o México não consegue gerar base fiscal nem força investidora para fazer a transição para uma economia mais sofisticada e sustentável. Com uma arrecadação equivalente a 17,3% do PIB em 2022, a mais baixa da OCDE, o Estado mexicano não tem margem para financiar programas sociais e investimentos estratégicos. O investimento público em Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) foi de apenas 0,27% do PIB em 2022, em comparação com uma média de 2,73% entre os países da OCDE, e bem abaixo de economias como a Coreia do Sul (5,21%), Alemanha (3,13%) e Brasil (1,15% em 2020).5 Banco Mundial. (2025). Indicadores de desarrollo mundial: Gasto en investigación y desarrollo (% del PIB). Em: (<)a href='https://data.worldbank.org/indicator/GB.XPD.RSDV.GD.ZS?locations=MX-KR-DE-BR'(>)https://data.worldbank.org/indicator/GB.XPD.RSDV.GD.ZS?locations=MX-KR-DE-BR(<)/a(>).

Novos tempos

Com a chegada de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) à presidência, o discurso oficial se afastou de forma decisiva do neoliberalismo e passou a reconhecer a importância das políticas industriais e do papel do Estado na economia. Nos seis anos do governo AMLO, cada uma das três subsecretarias vinculadas à Secretaria da Economia6Nota da tradutora: órgão do Poder Executivo, sendo as secretarias equivalentes aos ministérios no caso brasileiro. apresentou sua própria proposta de política industrial. Paralelamente, o governo promoveu projetos de infraestrutura significativos e fortaleceu o papel das empresas estatais como a petroleira PEMEX e a Comissão Federal de Eletricidade (CFE). No entanto, não foi criado um marco integral que vinculasse essas iniciativas à promoção de setores estratégicos, ao desenvolvimento de clusters tecnológicos ou à implementação de incentivos à inovação que pudessem impactar o restante da economia. O fortalecimento das empresas públicas foi alcançado com resultados díspares e sem uma estratégia definida para avançar em setores de maior valor agregado e mais sustentáveis.

A prioridade do governo federal foi a adoção de uma agenda social e trabalhista que obteve avanços significativos, principalmente na diminuição da pobreza (de 41,9% em 2018 para 36,3% em 2022) e no aumento do emprego formal, impulsionados pelo incremento contínuo do salário mínimo e pela regulamentação da terceirização. No entanto, as políticas sociais—que este e outros governos progressistas latino-americanos priorizaram nas últimas décadas—têm limitações decorrentes, em grande parte, da estrutura da matriz produtiva, bem como da capacidade fiscal e institucional do Estado. No caso do México, as conquistas alcançadas não se refletiram em uma estratégia de transformação produtiva capaz de reverter a baixa produtividade, reduzir a alta taxa de informalidade ou ampliar a base tributária de forma significativa. 

A nova narrativa adotada—que se distanciou de forma decisiva da perspectiva neoliberal—não foi acompanhada por um fortalecimento institucional do aparato econômico do Estado. O caso da Secretaria da Economia ilustra bem essa situação: sua capacidade operacional e técnica foi significativamente enfraquecida nos últimos anos; o orçamento foi reduzido de 0,5% em 2013 para apenas 0,2% em 2019; e foram extintas algumas áreas importantes dentro dessa estrutura, como as de regulamentação, promoção de exportações, atração de investimentos estrangeiros e apoio ao empreendedorismo, sem que os recursos correspondentes fossem destinados a outras áreas ou a estruturas alternativas que pudessem supri-las. Como resultado, a atuação do órgão ficou limitada à articulação e implementação de uma política industrial robusta e de longo prazo.

A agenda ambiental também ficou em segundo plano. O orçamento real da Secretaria do Meio Ambiente foi reduzido de cerca de 82 bilhões de pesos mexicanos em 2017 (cerca de 24 bilhões de reais) a 39 bilhões de pesos mexicanos (cerca de 11 bilhões de reais) em 2019. Ao mesmo tempo, foram extintos fundos destinados ao financiamento de ações de mitigação e adaptação climática. Projetos de grande porte (Trem Maya, Refinaria Olmeca) avançaram com avaliações de impacto ambiental realizadas às pressas e consultas sociais questionáveis, enquanto no setor elétrico o cancelamento de leilões de energias renováveis e a reforma da Lei da Indústria Elétrica, que prioriza a energia fóssil distribuída pela CFE, frearam novos investimentos em energia solar e eólica. Essa combinação de cortes, brechas regulatórias e projetos fósseis como prioridade minou a capacidade do Estado de alcançar suas próprias metas climáticas e criar as bases para uma transição sustentável. Em conjunto, essas decisões evidenciam a falta de uma abordagem transversal capaz de integrar os setores energético, econômico, trabalhista e ambiental em uma política industrial verde e com alto valor agregado.

O início de uma política industrial verde?

Com a chegada de Claudia Sheinbaum à presidência, a transformação produtiva começou a ter mais protagonismo tanto no discurso oficial quanto na formulação de políticas públicas. O atual governo reconhece explicitamente a necessidade de articular crescimento econômico, sustentabilidade ambiental e justiça social por meio de uma estratégia de desenvolvimento produtivo de longo prazo, voltada para a prosperidade compartilhada. O Plano México, concebido como a política estrutural para avançar nessa direção, surge como eixo articulador dessa visão: busca impulsionar a industrialização, fortalecer o conteúdo nacional nas cadeias de valor e reorientar o modelo econômico para setores de maior valor agregado.

Com Sheinbaum, cientista de formação e ex-integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), a agenda ambiental também ganhou maior importância. Durante o mandato como chefe de governo da Cidade do México, ela promoveu importantes iniciativas, entre elas o projeto Ciudad Solar, duas novas usinas de reciclagem—consideradas entre as mais modernas da América Latina—, um modelo de mobilidade sustentável voltado para o transporte elétrico e a expansão da infraestrutura cicloviária.

Agora, na presidência, Sheinbaum elegeu a agenda ambiental como uma prioridade estratégica. Entre suas ações recentes, destacam-se a promoção de trens elétricos, a aprovação de reformas legais secundárias para acelerar a transição energética, o incentivo ao primeiro ônibus elétrico mexicano e um programa piloto de economia circular na cidade de Tula, no estado de Hidalgo. Também começaram a ser articuladas iniciativas como a criação da primeira montadora nacional de veículos elétricos—no marco do projeto Olinia—e o lançamento do programa Sol del Norte, na cidade de Mexicali, que prevê a instalação de 5.500 painéis solares em residências, com um investimento de 200 milhões de pesos mexicanos (cerca de 58 milhões de reais). Com essa nova abordagem, o Estado mexicano volta a se posicionar como um ator estratégico do desenvolvimento, utilizando as empresas públicas—em particular a CFE e a LitioMX—não como meras operadoras, mas como instrumentos de planejamento e investimento na transição energética e produtiva.

A chegada de profissionais com sólida formação técnica e experiência internacional a posições importantes do gabinete ministerial—como Alicia Bárcena (ex-secretária executiva da CEPAL) no Meio Ambiente, Marcelo Ebrard na Economia, Luz Elena González na Energia, Rosaura Ruíz na Ciência e Tecnologia, Julio Berdegué na Agricultura e Vidal Llerenas na Subsecretaria da Indústria e Comércio—cria bases promissoras para a consolidação de uma estratégia de transformação produtiva sustentável. A isso se soma a criação do Conselho Assessor Empresarial, liderado por Altagracia Gómez, que introduz um mecanismo institucional para articular o setor privado com as prioridades do novo modelo de desenvolvimento. Os primeiros meses do atual governo já deram sinais de uma coordenação mais fluida entre os órgãos públicos—uma condição indispensável—em comparação com o mandato anterior, o que representa um avanço significativo para uma política industrial mais coerente, adaptável e com projeção de longo prazo.

Ao contrário de outros países da região, o México possui uma base produtiva relativamente sofisticada, o que oferece uma plataforma realista e ambiciosa para impulsionar uma transformação ecológica. O país conta com recursos renováveis em abundância, proximidade estratégica com os Estados Unidos e uma base de manufatura consolidada.7Véjares, M., de Gaspi, R. H., Sahay, T., Wang, C., Goldman, J., & Allan, B. (2025). Las oportunidades de política industrial verde de México en el nuevo panorama geopolítico. Net Zero Industrial Policy Lab. Setores como o automotivo, o aeronáutico, o emergente ecossistema digital e segmentos-chave da cadeia de semicondutores oferecem um ponto de partida concreto para avançar em direção a uma maior e sustentável complexidade econômica. Com esses alicerces, o país tem a oportunidade de elaborar uma nova geração de políticas industriais verdes capazes de responder, simultaneamente, aos desafios do contexto geopolítico e climático e à urgência de um desenvolvimento mais justo, mais resiliente e com visão de futuro.

Nesse contexto, impulsionar uma política industrial verde exige focar em ações climáticas e sustentabilidade: deixar de considerá-las uma condição restritiva e assumi-las como alavancas estratégicas—capazes de gerar ciclos virtuosos de investimento, inovação, criação de empregos e competitividade. A acelerada mudança dos mercados internacionais para a adoção de critérios ecológicos, tecnologias limpas e cadeias de valor com baixas emissões de carbono pode transformar a sustentabilidade em vantagem competitiva. Atrasar essa transição não só poderia acarretar riscos ecológicos e sociais, mas também econômicos, pois ameaçaria o acesso a mercados estratégicos e deixaria o país exposto ao atraso tecnológico em setores com uso intensivo de carbono e baixo valor agregado.

O México conta com janelas de oportunidade em indústrias emergentes e, portanto, sua estratégia deve estar ancorada em princípios de viabilidade ecológica desde o início, o que significa priorizar setores que utilizam energia limpa, promover mecanismos de upgrading ambiental e consolidar a economia circular. No entanto, colocar tudo isso em prática exige mais do que recursos; é preciso contar com alianças políticas sólidas, planos de ação com objetivos bem-definidos e estruturas institucionais que se proponham a aprender continuamente. Assim, o Estado deve ir além da regulamentação e atuar como investidor de primeiro grau, guiando os percursos produtivos de forma tecnológica e elaborando políticas com critérios de igualdade territorial, inclusão social e justiça ambiental. Só assim a política industrial verde será capaz de reorganizar, em vez de reproduzir, as atuais estruturas de poder e desigualdade.

A nova política industrial 

O Plano México oferece boas razões para se manter otimista quanto à possibilidade de o país finalmente implementar uma política industrial robusta e sustentável. Além de ser um documento tecnicamente sólido e bem estruturado, está se tornando uma referência na articulação de políticas fundamentais voltadas para a transformação produtiva e o enfrentamento das tensões geradas pelas tarifas anunciadas por Donald Trump. Entre suas características mais relevantes, destaca-se a participação ativa do Estado, que recupera o protagonismo na definição de uma visão de longo prazo e na coordenação interinstitucional. Ele incorpora uma visão mais ampla do que as propostas apresentadas em anos anteriores, incluindo estratégias em áreas-chave como energia, infraestrutura, comunicações, educação e inovação, articuladas sob uma visão produtiva comum. Além disso, aposta em uma abordagem territorial diversificada, que reconhece as desigualdades regionais e busca enfrentá-las por meio de políticas específicas.

Como objetivos centrais, propõe a criação de empregos de qualidade, o fortalecimento do mercado interno, a promoção do conteúdo nacional e a substituição de importações. Também estabelece metas concretas relacionadas ao emprego e formação, como a capacitação anual de 150 mil técnicos e a criação de 1,5 milhão de empregos em setores estratégicos. Em termos de investimento público, prevê a execução de 145 projetos energéticos a cargo da CFE, a criação de um fundo para financiar pequenas e médias empresas e o desenvolvimento de infraestruturas essenciais, como trens de passageiros, rodovias, aeroportos e 100 parques industriais. Como aponta o secretário da Economia, Marcelo Ebrard, em um artigo publicado recentemente: “A aposta é focar na transformação produtiva do país. Isso implica elaborar e implementar uma política industrial que fortaleça o conteúdo nacional das exportações, reduza a dependência de importações de fora da região e desenvolva capacidades produtivas mais avançadas.

Para impulsionar os setores estratégicos, o Plano prioriza um conjunto de políticas públicas, incluindo compras públicas, incentivos fiscais, processos de tramitação virtuais, financiamento por meio de bancos de desenvolvimento e uma política energética condizente com a transição ecológica. Entre os setores considerados prioritários estão a indústria automotiva e de eletromobilidade, semicondutores, farmacêutica e biotecnologia, agroindústria sustentável, química e petroquímica, têxtil e calçadista, aeroespacial, tecnologias digitais e gestão da água.

Apesar do momento político favorável e do ambicioso projeto, há obstáculos estruturais que podem comprometer a viabilidade de uma política industrial verde, inclusiva e sustentável ao longo do tempo. A seguir, apresentamos alguns dos obstáculos mais significativos.

Restrição fiscal e baixos níveis de investimento: O México enfrenta uma forte pressão fiscal que tem se intensificado nos últimos anos. No final de 2024, o déficit fiscal chegou a representar 5,7% do PIB, uma taxa não observada em muitos anos, o que levou a cortes de gastos em vez de uma reforma fiscal integral. Essa fragilidade fiscal limita seriamente a capacidade do Estado de impulsionar os investimentos públicos. Entre 2000 e 2023, a taxa bruta de formação de capital fixo no México foi de apenas 22,7% do PIB, contra 39,1% observados no Leste Asiático no mesmo período.

Baixa capacidade institucional e ausência de mecanismos de coordenação: Elaborar e implementar uma política industrial verde requer competências complexas e especializadas por parte do Estado. No entanto, a estrutura institucional atual tem fragilidades consideráveis. Alguns exemplos são os casos da Secretaria da Economia e da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMARNAT), que sofreram cortes significativos em suas equipes e no orçamento nos últimos anos. A elaboração de políticas industriais modernas demanda grandes equipes formadas por especialistas em diversos temas, pessoas que o país deve formar, atrair e reter para poder implementar políticas de maneira eficaz.

Obstáculos na economia política. Redes rentistas e captura do Estado: A fragilidade institucional não é apenas técnica, mas também política. O México enfrenta uma economia política marcada por alianças entre elites que, historicamente, têm operado sob esquemas de captura do Estado, privilégios fiscais, favorecimento em contratos públicos e pouca concorrência. Essa é uma das críticas mais comuns em relação à falta de eficácia das políticas industriais na América Latina e deve ser abordada explicitamente para não repetir os erros do passado e não transformar essas novas políticas em mecanismos de obtenção de renda para grupos econômicos próximos ao poder político.

Reconfiguração geopolítica, incerteza e dependência comercial: A política protecionista dos EUA com o governo Trump enfraqueceu a integração econômica que o México construiu ao longo de três décadas. A imposição de tarifas sobre o aço, automóveis e eletrônicos, bem como a pressão para realocar cadeias de suprimentos, evidenciaram a vulnerabilidade decorrente da dependência de um único mercado que absorve mais de 80% das exportações mexicanas. A próxima renegociação do T-MEC será um processo fundamental para definir a posição estratégica do México na América do Norte e explorar novas oportunidades de integração produtiva. O setor automotivo, estratégico para a economia nacional, é particularmente preocupante, pois enfrenta ao mesmo tempo pressões tarifárias, um processo acelerado de eletrificação e uma crescente automação.

Incerteza jurídica e confiança do setor privado: Uma condição indispensável para mobilizar investimentos—nacionais e estrangeiros—é a segurança jurídica. No entanto, diversos atores do setor privado têm manifestado preocupação com o enfraquecimento dos contrapesos institucionais e a ambiguidade das regulamentações em setores-chave. A reforma do Poder Judiciário, aprovada recentemente, intensificou as preocupações relativas ao Estado de Direito, à autonomia judicial e à previsibilidade regulatória. Soma-se a isso alguns antecedentes, como o cancelamento de projetos renováveis, mudanças retroativas em contratos públicos e a incerteza no setor elétrico. Esses fatores fragilizam o clima comercial e podem frear investimentos de longo prazo, especialmente em setores caracterizados pelo uso intensivo de capital e tecnologia. Reconstruir a confiança exigirá uma estratégia permanente e compromissos para fortalecer o Estado de Direito, assegurar a aplicação das regras, garantir a autonomia dos reguladores e abrir espaços de diálogo com o setor produtivo.

Da ambição à aterrissagem: o que está em jogo

O sucesso de uma política industrial verde não dependerá apenas do ímpeto presidencial ou do volume de recursos disponíveis, mas da capacidade do Estado de elaborar, coordenar e executar estratégias complexas de maneira consistente em um ambiente em constante mudança. A história do México está repleta de exemplos de planos bem-intencionados que fracassaram por falta de capacidade operacional. Para evitar esse destino, é preciso criar uma estrutura de governança que combine liderança central no mais alto nível, coordenação entre secretarias e articulação territorial, além de uma estrutura capaz de dar continuidade aos processos para além dos ciclos políticos, que evite capturas e responda aos desafios técnicos e políticos do processo de transformação produtiva. 

Conduzir essa agenda implica superar três obstáculos históricos: a fragmentação institucional, a fragilidade fiscal e a desconexão entre as políticas públicas e a capacidade de cada território. Nesse contexto, o desafio não é apenas criar novas instituições, mas fortalecer as existentes, com equipes qualificadas, estabilidade orçamentária e capacidade técnica. A experiência mexicana e as experiências internacionais mostram que, sem competências sólidas por parte do Estado, mesmo as estratégias mais bem elaboradas acabam fracassando.

No caso do México, isso implica articular de maneira eficaz o Executivo federal com três esferas fundamentais: o setor privado; os governos estaduais; e sociedade civil, incluindo a academia. Essa articulação requer mecanismos estáveis, regras claras e canais de diálogo permanentes. Nesse sentido, começam a surgir iniciativas que buscam gerar conhecimento aplicado e promover o diálogo multilateral sobre políticas industriais sustentáveis, como o Co-Lab de Política Industrial Oxford-México, uma plataforma que busca promover a colaboração entre pesquisadores, o setor público e atores do setor produtivo.

Também está em jogo a possibilidade de transformar a estrutura fiscal do Estado. Com uma arrecadação de apenas 17% do PIB—a menor da OCDE—, o México não possui atualmente os recursos necessários para sustentar um processo ambicioso de transformação produtiva. Embora o contexto exija certa cautela na questão fiscal, ele também abre espaço para uma discussão que não pode ser adiada: como conciliar a estratégia de industrialização com um novo pacto fiscal progressivo que permita financiar bens públicos estratégicos? A intenção de fortalecer os bancos de desenvolvimento, mobilizar fundos verdes e criar novos instrumentos de financiamento não é suficiente se não houver um horizonte fiscal que garanta recursos estáveis, previsíveis e estrategicamente alocados.

Outra condição indispensável é o fortalecimento institucional. A política industrial verde não pode ser implementada com estruturas enfraquecidas e equipes técnicas limitadas. Reverter o processo de debilidade institucional em áreas-chave, como economia, ciência, energia e meio ambiente, é uma tarefa urgente e complexa. Ela envolve reconstruir capacidades técnicas, reativar a cooperação interinstitucional e conectar os sistemas de conhecimento às prioridades do desenvolvimento produtivo. Sem essa base, é possível que essa política se torne fragmentada, inconsistente ou foque apenas em objetivos de curto prazo.

No plano territorial, o principal desafio é construir uma política industrial que reconheça e potencialize as capacidades e o potencial produtivo de cada região do país. O Plano México deu um primeiro passo nessa direção ao identificar setores estratégicos específicos em cada região; no entanto, seu sucesso dependerá da capacidade dos governos estaduais e municipais de se apropriarem da estratégia e transformá-la em ações concretas. Replicar, adaptar e ampliar essas experiências pode promover uma cultura de transformação produtiva descentralizada, baseada na colaboração, no aprendizado institucional e na inovação a partir dos territórios. Para isso, é fundamental definir de forma clara e estratégica os critérios para a eleição de setores prioritários, considerando alguns fatores, como o potencial das cadeias locais, o desenvolvimento de capacidades tecnológicas, a geração de empregos formais, o impacto ambiental, a geopolítica e a inclusão social. Quando as estratégias são elaboradas a partir dos territórios e respondem às suas especificidades, as políticas deixam de ser uma imposição e podem ser apropriadas de acordo com cada contexto. 

Por último, o investimento estrangeiro direto, que tem sido tratado historicamente como um fim em si mesmo, deve ser repensado como uma alavanca para o desenvolvimento estratégico. Embora seja necessário atrair capital, isso não basta. É preciso canalizar esse investimento para objetivos bem definidos, como um melhor desenvolvimento de fornecedores, transferência de tecnologia, formação de talentos e sustentabilidade ambiental. Para isso, é fundamental construir uma nova política institucional que substitua a lógica passiva do passado por uma estratégia ativa, com enfoque setorial e prioridades bem definidas. As experiências internacionais mostram que isso pode ser alcançado quando o Estado tem clareza sobre o tipo de investimento que busca, as condições sob as quais recebe o investimento e as contrapartidas exigidas.

O que está em jogo, afinal, é a possibilidade de construir um novo contrato produtivo, baseado nas próprias capacidades, na inclusão social e na sustentabilidade. Essa transformação não pode depender exclusivamente do projeto técnico ou da atual conjuntura política. Ela requer liderança estratégica, instituições sólidas e uma ampla comunidade capaz de respaldá-la. Se o México conseguir articular essa base, a política industrial poderá deixar de ser uma promessa inconclusiva e se tornar, finalmente, uma alavanca para um desenvolvimento transformador e duradouro.

Entre riscos e oportunidades

O México vive um momento excepcional para reorientar seu modelo de desenvolvimento para uma política industrial verde, inclusiva e de longo prazo. A combinação de legitimidade política, alinhamento institucional e ativos produtivos disponíveis cria uma janela de oportunidade inédita em mais de quatro décadas. A presidenta Claudia Sheinbaum não só chegou ao poder com um apoio expressivo—61% dos votos—, como também mantém um índice histórico de aprovação popular e conta com apoio legislativo suficiente para avançar em reformas estruturais sem obstáculos significativos. A essa legitimidade soma-se um gabinete técnico que começou a atuar de forma coordenada. No entanto, essa janela de oportunidade tem limitações.

O verdadeiro desafio já não é se deve existir uma política industrial verde, mas como conduzir sua execução com eficácia, transparência e visão transformadora. O país testemunhou várias estratégias que, por falta de coordenação, financiamento ou capacidade institucional, se dissiparam. Hoje, há um caminho sendo traçado. O Plano México pode se tornar o eixo articulador dessa transformação, desde que se estabeleçam as bases para isso com ações contundentes nos próximos meses.

Garantir o sucesso dessa agenda implica agir simultaneamente em três forças fundamentais: uma estrutura de governança estratégica e participativa, um sistema financeiro sólido e progressivo que garanta investimentos sustentáveis e um Estado com capacidade técnica e institucional para liderar processos de transformação complexos. Com base nisso, será possível territorializar a estratégia, trabalhar em coordenação com governos locais, escolher setores com critérios de impacto estrutural e orientar o investimento estrangeiro de acordo com os objetivos nacionais.

Mesmo assim, existem fatores que podem comprometer o potencial da reindustrialização verde, como a captura das políticas para interesses particulares, a fragmentação burocrática e a visão política de curto prazo. Além disso, há a possibilidade de conflitos externos—mudanças na política comercial dos Estados Unidos ou crises energéticas—que exigirão maior resiliência das instituições. Por isso, é fundamental construir mecanismos de prestação de contas, participação cidadã e avaliação constante, garantindo que essa transformação responda aos interesses públicos e não a agendas privadas.

O mais importante agora é contar com a liderança estratégica, a capacidade técnica e o talento político para combinar todos esses ingredientes em uma receita própria: uma política industrial verde fabricada no México. Para alcançar isso, será necessário contar com aliados que compartilhem uma visão comum e construir uma ampla comunidade envolvendo universidades, setor privado, centros de pesquisa, sindicatos, sociedade civil, organismos multilaterais e órgãos de cooperação internacional. Só com um ambiente diverso e colaborativo será possível sustentar essa agenda transformadora ao longo do tempo, protegê-la das oscilações políticas e transformá-la em uma política de Estado com legitimidade social.8 Lebdioui, A. (2024). (<)em(>)Survival of the greenest: Economic transformation in a climate-conscious world(<)/em(>). Cambridge University Press

O desafio, portanto, é transformar uma conjuntura favorável em uma política de Estado, com projeção de longo prazo e vocação estrutural. Se o México conseguir consolidar essa visão—ancorada na sustentabilidade, inovação e inclusão—, avançará em direção a um modelo de desenvolvimento mais justo e resiliente, e poderá se tornar uma referência regional e global, ao mostrar como um país de renda média pode se reindustrializar sem repetir os erros do passado.

Traduzido do espanhol por Luiza Mançano.

Leitura adicional
Elos frágeis

O México diante da ameaça tarifária

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Monopsônio, poder corporativo e mercado de trabalho


O México diante da ameaça tarifária

Editor's Note: Em uma drástica virada na política comercial dos Estados Unidos, o governo Trump não apenas impôs uma nova rodada de tarifas contra o México como ameaça aumentá-las ainda mais. As medidas vêm alarmando a indústria manufatureira e o governo mexicano. Caso sejam aplicadas integralmente, as tarifas podem causar interrupções imediatas nas principais zonas industriais do país, colocando em risco milhares de empregos e paralisando investimentos estratégicos.

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Guerra e economia no México

Editor's Note: O México exemplifica uma forma de capitalismo altamente militarizada e brutalizada, em que as linhas entre empresas criminosas e legais se confundem, e os militares assumem um papel importante na readequação dos espaços às necessidades do capital, oscilando entre ser um ator disciplinador e econômico. Durante o governo de López Obrador (2018-2024), antecessor de Sheinbaum e fundador do Morena, o Estado concedeu aos militares um papel primordial nos negócios – em infraestrutura, transporte e construção. Como resultado, o poder executivo do México se tornou mais dependente dos militares do que nunca.

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Monopsônio, poder corporativo e mercado de trabalho

Editor's Note: Nos últimos seis anos, o salário-mínimo real mais que dobrou no México. Não é pouca coisa, especialmente se considerarmos que a implementação dessa política pública não acarretou perda de empregos nem aumento de preços. Sem dúvidas, o fato de que inicialmente o salário-mínimo mexicano estava muito abaixo da média da América Latina favoreceu o resultado. No entanto, com o aumento mais recente, o piso salarial mexicano já superou o de mais da metade dos países da região. Como se explica o fato de que aumentos reais tão significativos no salário-mínimo não tenham provocado desemprego ou inflação?

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