O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos reacendeu um debtate regional sobre o fentanil. Se a letalidade da substância já tinha deixado o mundo todo em alerta, agora, sua popularização também passou a ameaçar a relação comercial entre EUA, México e Canadá. Trump acusa os cartéis mexicanos de serem os principais responsáveis pelo tráfico da droga e o Canadá de abrigar os laboratórios clandestinos onde ela é produzida. A imposição de tarifas de 25% sobre todas as exportações mexicanas e canadenses não cobertas pelo tratado de livre comércio entre os países (USMCA) e 10% sobre produtos energéticos tem o objetivo declarado de pressionar os vizinhos a reprimir o tráfico de fentanil e a imigração ilegal.
A chegada do fentanil ao mercado dos EUA teve repercussões econômicas significativas também para o México. Com forte efeito psicoativo, baixo custo e facilidade de transporte, o fentanil transformou profundamente antigos padrões de comércio e consumo de drogas, efetivamente reestruturando o mercado ilícito global. A crescente presença do fentanil ilegal somada a políticas antidrogas focadas em combater a oferta da substância deslocou a produção do opioide sintético da China para o México, reduziu receitas provenientes de outras drogas—como a heroína—e contribuiu para a diversificação das atividades criminosas de cartéis mexicanos.
Em todo o mundo, mortes por overdose de opioides têm aumentando drasticamente. Só em 2019, dos 600 mil óbitos relacionados ao consumo de drogas registrados em nível global, os opioides responderam por um quarto. Nos últimos anos, o aumento do consumo dessas substâncias para o tratamento de dor crônica e a proliferação ilegal de opioides sintéticos intensificou ainda mais essa crise. Os EUA são o país mais afetado pelo uso de fentanil sem receita médica, respondendo por 98,8% das apreensões reportadas mundialmente.1CDC (2025). (<)em(>)Wide-ranging Online Data for Epidemiologic Research (<)/em(>)(CDC Wonder) Entre 2010 e 2022, as mortes por overdose cresceram 519%, ultrapassando a cifra de 100 mil no último ano. O aumento do consumo de opioides sintéticos, especialmente o fentanil, é um grande responsável pela explosão dos números: em 2022, essas substâncias responderam por 68,4% das mortes por overdose. Em resposta, os EUA adotaram uma série de medidas particularmente voltadas à restrição da oferta, deixando de lado as causas do consumo. Essa estratégia, além de ineficaz, acabou afetando também a realidade do próprio México.
Ainda que os cartéis mexicanos sejam, de fato, um fator central para a crise do fentanil, o diagnóstico do governo Trump foca demasiadamente nas forças externas e ignora políticas domésticas que deveriam abordar os motivos por trás do aumento da demanda por opioides. O uso de tarifas como medida punitiva desvia a atenção das causas mais profundas da crise do fentanil e dificulta a coordenação de políticas bilaterias que poderiam limitar a ação de organizações criminosas transnacionais.
A crise dos opioides
O aumento de mortes por overdose de fentanil nos EUA é o capítulo mais recente da epidemia de opioides, uma história que já dura décadas e pode ser dividida em três fases. A primeira delas teve início no final dos anos 90, impulsionada por um aumento na prescrição de opioides como analgésicos, período no qual a indústria farmacêutica americana promoveu ativamente o uso dessas substâncias para o tratamento da dor, minimizando riscos e incentivando médicos a prescrevê-las. Isso também barateou radicalmente esses produtos: entre 2001 e 2010, o preço dos opioides nas farmácias caiu 81%. Como consequência, as mortes por overdose de opioides legalmente prescritos praticamente dobraram no período (Figura 1).

O aumento da letalidade do uso legal de opioides levou o governo dos EUA a adotar uma série de reformas para restringir a oferta dos remédios, como programas rigorosos de monitoramento de medicamentos prescritos (Prescription Drug Monitoring Programs—PDMPs) e a reformulação de comprimidos de liberação prolongada, como o OxyContin. Ao passo que reduziram os óbitos provocados por opioides receitados—após a implementação dos PDMPs, o número caiu 9%—, essas políticas também aumentaram a demanda por versões ilícitas dos opioides.2Meinhofer, A. “Prescription Drug Monitoring Programs: The Role of Asymmetric Information on Drug Availability and Abuse.” (<)em(>)American Journal of Health Economics(<)/em(>), 4 (4): 504-526, 2018. Em razão da maior disponibilidade e do menor custo, muitos usuários migraram para o uso de heroína. Entre 2002 e 2011, 79,5% dos novos consumidores de heroína relataram ter usado opioides legais para fins não medicinais anteriormente, enquanto apenas 1% dos usuários de opioides prescritos relataram já ter usado heroína.3Muhuri, P. K., Gfroerer, J. C., and Davies, M. C. “CBHSQ data review”. (<)em(>)Center for Behavioral Health Statistics and Quality(<)/em(>), SAMHSA, 1:17, 2013. Entre 2010 e 2013, as mortes por overdose de heroína se multiplicaram. Esse fenômeno, conhecido como a segunda onda da epidemia de opioides, foi uma consequência indireta de políticas públicas exclusivamente focadas na restrição de oferta, sem considerar o impacto das substâncias sobre os usuários ou adotar estratégias voltadas ao enfrentamento da dependência química.
A partir de 2013, as mortes por overdose passaram a crescer de forma ainda mais acelerada. O principal responsável por isso foi o fentanil, um opioide sintético muito mais potente que a morfina (entre 50 e 100 vezes) e a heroína (entre 20 e 40 vezes). Ainda que, como medicamento, o fentanil represente um grande avanço no tratamento da dor intensa, sua crescente disponibilidade no mercado ilegal fez com que se tornasse o protagonista da fase atual da epidemia de opioides. Em 2013, dos óbitos relacionados ao uso dessas substâncias, o fentanil estava associado a apenas 12,4%. Em 2022, esse número saltou para 90,2%.
O aumento abrupto no número de mortes por fentanil se deve a uma combinação de fatores: a alta letalidade, a facilidade de contrabando e as mudanças nos padrões de oferta e demanda decorrentes de seu baixo custo. Se, por um lado, a enorme potência da droga aumenta significativamente o risco de overdose, por outro, como a quantidade necessária para cada dose é mínima, seu tráfico é muito mais fácil em comparação com outras drogas.
O baixo custo de produção, a alta eficácia e a facilidade de aquisição fizeram do fentanil uma alternativa atraente tanto para consumidores quanto para traficantes. No mercado ilegal, um único comprimido de OxyContin de 80 mg pode custar até US$ 80. O preço da heroína é de US$ 20 por 0,1g. Enquanto isso, uma pílula de fentanil custa apenas US$ 3. Para quem compra, é uma alternativa muito mais barata; para quem vende, é uma oportunidade de reduzir custos e aumentar margens de lucro em relação ao comércio de substâncias como a heroína.
No varejo, a heroína costuma ser vendida a um preço fixo, independentemente da demanda ou da pureza do produto, de modo que as margens de lucro são ajustadas por meio da alteração de sua composição.4Hoffer, L. and Alam, S. J. “Copping in heroin markets: The hidden information costs ofindirect sales and why they matter”. En (<)em(>)International Conference on Social Computing, Behavioral-Cultural Modeling, and Prediction(<)/em(>), 83–92, 2013. Misturar heroína com fentanil permite aos traficantes reduzir significativamente os custos enquanto mantêm—ou até intensificam—os efeitos para quem usa. Como a presença de fentanil é imperceptível a olho nu, o consumo não consciente de heroína adultuterada é outro fator que tem contribuído para o aumento das overdoses.
Da China para o México
Até o início da terceira onda da epidemia de opioides, a China era a principal fornecedora do fentanil consumido ilegalmente nos EUA. A droga era enviada por correio diretamente a partir da China ou através do México e do Canadá, entrando nos EUA por via terrestre, escondida em veículos de passageiros ou em caminhões que transportavam mercadorias legais pela fronteira. Na estreia do fentanil no mercado ilegal americano, os cartéis mexicanos atuavam mais como intermediadores do que como produtores: entre 2016 e 2018, 97% do fentanil apreendido nos Estados Unidos tinha origem chinesa. Não há indícios, tampouco, de que os cartéis tenham sido responsáveis pelo aumento da mistura de heroína com fentanil. Análises laboratoriais realizadas na heroína apreendida na fronteira sul dos EUA ao longo de 2019 indicaram que a grande maioria das amostras não estava adulterada nem continha traços de fentanil. As evidências sugerem que, no atacado, os cartéis preferiam traficar as duas substâncias separadamente. A mistura de heroína e fentanil para o varejo, portanto, ocorre no mercado interno dos EUA.5Dudley, S., Bonello, D., Lopez-Aranda, J., Moreno, M., Clavel, T., Kjelstad, B., and Restrepo, J. J. “Mexico’s role in the deadly rise of Fentanyl”. (<)em(>)Wilson Center(<)/em(>), 2019.
A transição dos cartéis mexicanos de intermediários para fabricantes muito provavelmente foi possibilitada por uma série de medidas impostas pelo governo chinês para limitar o tráfico de fentanil. Em resposta à crescente pressão diplomática de Washington, apesar de considerar as acusações dos Estados Unidos infundadas, Xi Jinping criou uma série de políticas para controlar o fentanil e produtos associados. Na cúpula do G20 de 2018, por exemplo, a China anunciou medidas de proibição da venda, produção e exportação de fentanil sem autorização especial, além da inclusão de outras drogas análogas na lista de substâncias controladas.6Felbab-Brown, V. China and synthetic drugs control: Fentanyl, methamphetamines, and precursors. (<)em(>)Brookings(<)/em(>), 2022. Essas ações foram acompanhadas por um maior controle dos serviços postais e pela criação de laboratórios e unidades especializados dedicados à investigação do tráfico de fentanil. Mas, ainda que as ações do governo chinês tenham reduzido os envios diretos de fentanil por correio, não diminuíram sua disponibilidade. Ao contrário, abriram espaço para a entrada de novos atores no mercado: a produção de fentanil foi transferida da China para o México.
Desde 2019, a DEA identifica o México como o novo epicentro do fentanil, apontando o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) como os principais produtores. Esses grupos não só consolidaram seu controle sobre os corredores de tráfico para os EUA, mas desenvolveram capacidades para sintetizar o fentanil em laboratórios clandestinos locais, utilizando insumos químicos provenientes da China.
Entre 2019 e 2023, as apreensões de fentanil na fronteira do México com os Estados Unidos aumentaram mais de 900% (Figura 2). Embora esse crescimento possa ser parcialmente atribuído à vigilância mais rigorosa da fronteira, o número também indica a vertiginosa expansão da produção de fentanil pelos cartéis mexicanos.

Diversificação produtiva ilegal
A expansão do fentanil reestruturou o mercado de drogas dos EUA, alterando tanto o comportamento dos consumidores quanto as estratégias dos cartéis mexicanos e, ainda, gerando consequências inesperadas para a população do México. Por ser mais barato e eficaz, o fentanil reduziu a demanda por outras drogas. Isso impactou substancialmente o México, principal fornecedor de heroína para os Estados Unidos, responsável por aproximadamente 90% da droga consumida no país vizinho. Entre os mexicanos mais afetados estão os produtores de papoula, que, em 2019, relataram uma queda de 50% a 80% no preço do ópio em relação a 2017.7Le Cour Grandmaison, R., Morris, N., and Smith, B. “The last harvest? From the US fentanyl boom to the Mexican opium crisis”. (<)em(>)Journal of Illicit Economies and Development(<)/em(>), 1(3): 312–329, 2019. A subsistência de comunidades inteiras dependia desse cultivo: a ascensão do fentanil provocou a migração forçada de centenas de famílias e, entre 2017 e 2020, a área cultivada de papoula diminuiu em 47%.
A queda na rentabilidade da heroína também mudou o comportamento dos cartéis mexicanos. Enquanto grupos como o Cartel de Sinaloa e o CJNG conseguiram se adaptar mais rapidamente por meio da diversificação e inclusão do fentanil em suas atividades produtivas, organizações que dependiam fortemente do comércio de heroína tiveram que buscar novas fontes de renda. Foi assim que a produção de abacate—cujas exportções ultrapassaram, desde 2016, US$ 200 bilhões anuais—começou a ganhar a atenção dos cartéis.8Estimativas próprias com base em informações da SAGARPA.
A proximidade geográfica das principais áreas produtivas de papoula e abacate facilitou a expansão dos cartéis para o setor. Michoacán, por exemplo, principal estado mexicano produtor e exportador de abacate, faz fronteira com Guerrero, responsável por mais de 60% da produção nacional de papoula.9Le Cour Grandmaison, R., Morris, N., and Smith, B. “The last harvest? From the US fentanyl boom to the Mexican opium crisis”. (<)em(>)Journal of Illicit Economies and Development(<)/em(>), 1(3): 312–329, 2019. A semelhança das condições de solo e clima necessárias para o cultivo de ambos os produtos permitiu aos cartéis que ficaram de fora do negócio do fentanil compensar suas perdas com a produção de heroína por meio da extorsão de um setor agrícola que assistiu, ao longo da última década, ao aumento expressivo da demanda mundial.10De Haro, I. “Avocados: Mexico’s green gold, drug cartel violence, and the US opioid crisis”. (<)em(>)World Development(<)/em(>), (<)em(>)191(<)/em(>), 2025.
Agricultores, embaladores e transportadores pagam “pedágios” (derechos de piso) aos cartéis e estão constantemente sujeitos ao roubo de produtos. Em razão disso, o setor do abacate sofreu perdas de milhões de dólares. Somente em 2014, estima-se que o cartel dos Cavaleiros Templários tenha arrecadado cerca de US$ 150 milhões com a extorsão do setor de acabate no município de Tancítaro, principal produtor do produto do país. O valor correspondente a quase 10% do total das exportações mexicanas do produto naquele ano. No estado de Michoacán, semanalmente, uma média de sete a dez caminhões de abacate são roubados, provocando perdas anuais que atingem US$ 5 milhões.
A diversificação das atividades criminosas também mudou padrões de violência dos cartéis. A redução da demanda por heroína está relacionada com o aumento da taxa de homicídios e roubos violentos em municípios produtores de abacate. Trabalhadores rurais são as principais vítimas. Municípios tradicionalmente produtores de papoula, por outro lado, registraram uma queda nos registros desses mesmos crimes.11De Haro, I. (2025). “Avocados: Mexico’s green gold, drug cartel violence, and the US opioid crisis”. (<)em(>)World Development(<)/em(>), (<)em(>)191(<)/em(>).
Mas, apesar da variação nos níveis de criminalidade, não há evidência de que os cartéis—incluindo aqueles que anteriormente se dedicavam ao tráfico de heroína—tenham se deslocado das áreas de cultivo de papoula para as de abacate. O aumento da violência nas áreas produtoras de abacate parece estar relacionado ao crescimento das oportunidades para grupos criminosos que já operavam nessas regiões, e não a disputas territoriais. Uma vez que envolve o uso expressivo de recursos humanos e capital para enfrentar a concorrência, a expansão geográfica tem um custo muito alto para os cartéis. Embora a renda obtida pela extorsão do setor de abacate ajude a compensar a perda dos lucros com a heroína, o ganho ainda não é suficiente para justificar o risco e o investimento necessários para o ingresso em territórios controlados por grupos rivais.
De toda forma, esse padrão de diversificação indica uma transformação estrutural no modelo de negócio dos cartéis, que agora faz uso da violência para garantir rendimentos provenientes de atividades legais. O boom do fentanil contribuiu, ainda que indiretamente, para o aumento dos índices de criminalidade em áreas de cultivo de abacate.
Políticas públicas e cooperação internacional
A fase mais recente da epidemia dos opioides evidenciou que estratégias públicas exclusivamente voltadas para a redução da oferta e a perseguição de grupos criminosos têm resultados limitados. Ainda que restringir a disponibilidade de opioides sintéticos nos mercados ilegais seja fundamental, a experiência das duas primeiras ondas da epidemia deixa claro que isso é insuficiente. A notável capacidade de adaptação das organizações criminosas e o surgimento de drogas ainda mais potentes, como o carfentanil—até 100 vezes mais forte que o fentanil—realçam a urgência da adoção de políticas públicas que não ignorem, em suas estratégias, a possibilidade de mudanças nos padrões de comércio e consumo de substâncias ilícitas.
Essa urgência é ainda maior diante dos limites das soluções médicas para a epidemia de opioides. Embora a Naloxona ainda seja o principal antídoto para os efeitos de uma overdose de opioides, sua eficácia diminui consideravelmente em casos de opioides sintéticos mais potentes e de duração mais longa, exigindo doses cada vez maiores e mais frequentes.12Carpenter, J., Murray, B. P., Atti, S., Moran, T. P., Yancey, A. and Morgan, B. “Naloxone dosing after opioid overdose in the era of illicitly manufactured fentanyl”. (<)em(>)Journal of Medical Toxicology(<)/em(>), 16: 41-48, 2020. Isso dificulta uma resposta sanitária adequada e limita o alcance de políticas exclusivamente focadas na expansão do acesso a esse medicamento. Em um contexto de crescente dinamismo na oferta e na demanda de opioides, é essencial que o Estado aborde a questão de forma integral, combinando a oferta efetiva de tratamento a dependentes químicos com políticas de fortalecimento do sistema de saúde e de promoção do bem-estar de comunidades mais vulneráveis.
No plano internacional, a imposição de tarifas à China, ao México e ao Canadá demonstra como a epidemia de opioides tem provocado tensões diplomáticas e comerciais. As ações unilaterais dos EUA refletem uma lógica punitiva que externaliza a responsabilidade e prioriza interesses políticos e econômicos em detrimento da cooperação regional. No caso da China, a guerra tarifária põe fim a anos de cooperação bilateral no combate ao fentanil, um esforço essencial para limitar, inclusive, o fluxo de insumos químicos da China para o México. No caso mexicano, as tarifas ainda vieram acompanhadas da inclusão dos cartéis na lista de organizações terroristas, o que permite aos EUA bloquear fluxos financeiros e justificar operações militares e missões de espionagem no território do país. A imposição de tarifas ao Canadá, por fim, é bastante questionável, uma vez que a quantidade de fentanil traficada pela fronteira do norte dos EUA é mínima: em 2024, menos de 0,2% das apreensões de fentanil tinham origem canadense.13Estimativas próprias com base em informações do CBP.
Essa abordagem punitiva também invisibiliza as políticas implementadas pelo governo mexicano nos últimos quatro anos. Nesse período, o México endureceu o controle de substâncias de “dupla utilização”, investiu na militarização de portos e alfândegas, aumentou o número de efetivos da Guarda Nacional na fronteira norte e aprovou uma reforma constitucional que prevê a prisão preventiva para crimes relacionados à aquisição e ao tráfico de insumos químicos e drogas sintéticas. Essa virada política têm sido alvo de controvérsia dentro do próprio México, uma vez que confere maior poder às forças armadas e ameaça o princípio da presunção de inocência. Mesmo assim, a política de drogas do atual governo de Claudia Sheinbaum não vem apresentando soluções efetivas para enfrentar a questão a fundo. Apesar da implementação de diversos programas sociais de redução da pobreza, não há, por exemplo, uma estratégia clara para limitar o recrutamento de novos membros pelos cartéis. O governo chegou até a negar que cartéis estariam alistando estudantes de química para produzir fentanil, apesar das denúncias publicadas na imprensa. Ainda que o governo mexicano tenha lançado uma necessária campanha nacional de prevenção para combater o consumo doméstico de fentanil, a medida está longe de resolver os estragos causados pela substância no país.14Segundo um relatório da Comissão Nacional de Saúde Mental e Dependência Química (Conasama), em 2023 foram registrados 430 casos atendidos relacionados ao consumo de fentanil no país.
Pelo foco implacável nas políticas do governo mexicano, o diagnóstico de Trump sobre a crise do fentanil acaba omitindo o papel dos Estados Unidos. O comércio de fentanil nos EUA foi intensificado pela ausência de políticas domésticas de saúde pública voltadas a resolver a questão da demanda dos estadunidenses por drogas e, ainda, pela falta de regulamentação sobre a venda de armas pelos EUA, permitindo que elas caiam nas mãos dos cartéis mexicanos.15A própria presidente Sheinbaum (<)a href='https://www.gob.mx/presidencia/prensa/mensaje-traducido-al-ingles-de-la-presidenta-claudia-sheinbaum-pardo-al-pueblo-de-mexico-por-aranceles-de-estados-unidos'(>)mencionou(<)/a(>) repetidas vezes essas questões em suas respostas oficiais às ameaças tarifárias. Uma coisa é clara: barreiras comerciais e militarismo não serão capazes de resolver uma crise transnacional de saúde pública e violência armada.
Tradução: Luiza Mançano
Arquivado em