13 de junho de 2024

Entrevistas

Ideologias de mercado

A União Soviética e a queda de Bretton Woods

A construção de oleodutos pela União Soviética em toda a Europa Ocidental concedeu à superpotência acesso aos mercados—e ao capital—europeus. Em seu novo livro, The Soviet Union and the Construction of the Global Market [A União Soviética e a construção do mercado global, sem tradução para o português], Oscar Sanchez-Sibony demonstra como essa jogada desafiou o domínio dos EUA sobre as instituições de Bretton Woods e acabou provocando uma reformulação ainda mais ampla das relações entre Estado e mercado. 

Na seguinte conversa, Sanchez-Sibony e Jamie Martin analisam a evolução do sistema financeiro global e investigam a construção e a desconstrução da ordem global do século XX. Sanchez-Sibony é professor associado de história na Universidade de Hong Kong e pesquisa a sobreposição de infraestruturas do poder global, com foco na maneira como o mundo contemporâneo foi moldado pela relação entre os arranjos domésticos e internacionais da União Soviética e do Ocidente. Seu último livro narra a dissolução das instituições de Bretton Woods sob a ótica da produção de energia, das finanças e dos conflitos entre as grandes potências. Jamie Martin é professor assistente de história e de estudos sociais na Universidade de Harvard. Pesquisa as bases institucionais da economia política global, expondo seus emaranhamentos com a guerra, com o mercado e com o imperialismo. Seu livro mais recente,The Meddlers: Sovereignty, Empire, and the Birth of Global Economic Governance[Os Mediadores: Soberania, Império e o Nascimento da Governança Econômica Global, sem tradução para o português], examina as origens do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. 

Sanchez-Sibony e Martin refletem sobre as consequências inesperadas da luta por hegemonia entre os EUA e a União Soviética e a relação entre interesse material e ideologia. O debate revela os impactos contraintuitivos que os controles de capital, os mercados de petróleo e a liberalização do comércio produziram no Sul Global e para além dele. 

Uma conversa entre Jamie Martin e Oscar Sanchez-Sibony

Jamie martin: O seu novo livro conta uma história instigante que revisita a economia política internacional da Guerra Fria a partir da perspectiva soviética. Aqui, como na obra de 2014, Red Globalization [Globalização Vermelha, sem tradução para o português], você propõe uma leitura alternativa que enxerga a União Soviética como um agente profundamente envolvido na economia mundial. Isso traz um aspecto-chave sobre a forma como os soviéticos navegaram no sistema capitalista global, por dentro e por fora. Seu objetivo parece ser o de nos fazer repensar e ampliar a nossa perspectiva sobre a natureza da economia mundial e do próprio capitalismo globalizado. 

oscar sanchez-sibony: Sem dúvida. Uma continuidade entre os dois livros é o fato de que eu destaco a amplitude da integração soviética e as ideologias que incentivaram essa integração. Tento repensar as categorias que normalmente mobilizamos para entender a União Soviética, que são, em grande parte, ideológicas. Quando observamos a forma como a União Soviética se inseria no mundo, percebemos que existe uma incompatibilidade em relação à imagem dela que costumamos ter—a de protetora do controle estatal sobre os mercados. 

E você tem razão, o principal objetivo desse novo livro é olhar especificamente para a transformação do mundo no momento de declínio de Bretton Woods, não tanto para levantar questões sobre a União Soviética especificamente, mas para perguntar qual o poder que estava realmente transformando o mundo. Espero que o livro possa trazer uma nova contribuição ao entendimento desse momento, apresentando a perspectiva soviética. Argumento que, durante esse período, a União Soviética—como muitos outros países da periferia—estava tentando romper os limites que a impediam de acessar o capital. Sob Bretton Woods, esse capital era rigidamente controlado pelos Estados Unidos, que especificamente proibiam o acesso à União Soviética.

Em resposta, a União Soviética começou a negociar com países europeus que também tentavam quebrar determinados monopólios dos EUA. Por meio da construção de infraestruturas de energia, ou seja, de uma série de oleodutos, a União Soviética garantiu acesso ao capital e passou por cima todo tipo de restrição imposta por Bretton Woods. Por meio da construção de oleodutos, a URSS criou uma espécie de esteira de transmissão de dívidas. 

Em última análise, o livro posiciona o capital como uma entidade que atraiu a União Soviética e o Sul Global a participarem de um modelo de relacionamento específico com o Ocidente. Esse relacionamento eventualmente se provou hierárquico, mas não lhes foi imposto à força. 

Jamie, que tipo de diálogo você vê aqui com seu trabalho?

JM: The Meddlers [Os Mediadores] narra o primeiro e o segundo ato de uma história. Narra o primeiro ato na medida em que delineia a ascensão de um novo tipo de poder global: o surgimento das primeiras instituições internacionais com grande autoridade sobre a formulação de políticas econômicas relacionadas aos aspectos mais centrais da soberania e riqueza nacionais. Essas instituições se diferenciavam muito daqueles órgãos de cooperação internacional do século XIX, que eram relativamente fracos. 

Esse novo tipo de poder global surgiu no final da Primeira Guerra Mundial, uma guerra que foi travada com novas e extraordinárias instâncias de coordenação econômica entre as principais potências aliadas. E o mais importante é que isso ocorreu cerca de 25 anos antes do ponto de partida convencional da governança econômica global, a Conferência de Bretton Woods.

Muitos dos recursos que hoje associamos à governança econômica global— resgates financeiros via empréstimos, canalizações de capital para projetos de desenvolvimento por meio de organizações internacionais, coordenação entre bancos centrais independentes, governança de commodities à la OPEP—surgiram na esteira da Primeira Guerra Mundial, principalmente entre os impérios aliados vitoriosos.

Os problemas políticos que eles enfrentaram ao estrear esse novo tipo de poder figuravam entre os grandes desafios postos à própria modernidade. Como os Estados fariam para coordenar soluções internacionais de estabilização econômica que implicavam a elaboração de políticas domésticas referentes a tarifas, gastos públicos, tributação, política monetária, e assim por diante? Além disso, como poderiam compatibilizar isso com as novas realidades políticas da era da autodeterminação e da política de massas que, a essa altura, se voltavam cada vez mais para a política econômica? No final do século XIX, exercer autonomia sobre questões domésticas de economia política era uma das mais firmes demonstrações de soberania existentes. 

Havia modelos anteriores de intervenção internacional nessas questões, mas eles estavam longe do ideal. Por exemplo, os empréstimos para estabilização financeira feitos aos países da Europa Central e Oriental durante a década de 1920 foram modelados de acordo com as técnicas semicoloniais de administração de dívida criadas no século XIX por investidores e impérios europeus e estadunidenses no norte da África, nos Bálcãs e na América Latina. Havia continuidades profundas e evidentes entre essas ferramentas de império financeiro informal do século XIX e as novas instituições de cooperação econômica internacional estabelecidas no período entreguerras. Essas continuidades persistiram durante o período pós-1945. É a partir dessa história que meu livro reconta o desenvolvimento de Bretton Woods. 

Na sequência da Conferência de Bretton Woods em 1944 houve um breve retorno a esse estilo antigo de diplomacia banqueira intervencionista. A principal diferença foi que esse sistema de governança econômica global passou a ser comandado pelos Estados Unidos. A quantidade e a qualidade dos Estados que tinham algum tipo de autonomia no sistema eram bastante restritas. E muitos integrantes do novo sistema de Bretton Woods enfrentaram arranjos institucionais bastante semelhantes àqueles de um período muito anterior. 

Esse é o segundo ato: o que, no final do século XX, parece ser o surgimento repentino do FMI à moda do Consenso de Washington é, na verdade, outra coisa: um momento de expansão de um conjunto de poderes latentes em uma instituição que já performava esse antigo estilo de diplomacia banqueira do século XIX.

Em suma, ambos tentamos reformular o entendimento comum sobre o que aconteceu em meados do século XX e, especificamente, em Bretton Woods. Eu defendo que o nascimento da governança econômica global não deve ser entendido nos termos de uma narrativa triunfalista sobre a ascensão do globalismo dos EUA e do New Deal, ou do internacionalismo liberal esclarecido, mas sim como um processo ad hoc de improvisação institucional. As novas realidades políticas forçaram os impérios a improvisar arranjos público-privados bastante confusos.

De certa forma, eu apresento uma nova maneira de entender o caminho que levou a Bretton Woods e você apresenta um novo modo de entender o caminho para sair de Bretton Woods.

oss: Essa é uma das coisas que mais gosto no seu livro, e acho que também compartilhamos a ideia de que as soluções são encontradas na prática e não em modelos. É importante ressaltar que os soviéticos particularmente buscavam soluções para problemas específicos, como a vontade dos italianos de se desvincilhar do monopólio estadunidense sobre seu setor petrolífero. Os europeus, em geral, depois de serem subitamente forçados a concorrer uns com os outros com o Tratado de Roma de 1957 e a instituição da Comunidade Econômica Europeia, buscavam se aproximar da União Soviética e testavam novas maneiras de se relacionar com o bloco socialista. Os soviéticos, por sua vez, procuravam maneiras de resolver seu problema de acesso ao capital.

Como seu livro nos ajuda a entender o neoliberalismo como uma ideologia que antecedeu em muito a década de 1980 e até mesmo a sociedade Mont Pèlerin?

JM: Uma das coisas que nossos livros compartilham é a noção de que ideologia e restrições materiais não perfazem uma competição de soma zero. Acho que nenhum de nós gostaria de descartar totalmente a importância da ideologia, mas ambos damos tanta antenção ao que as pessoas faziam quanto ao que diziam. Uma característica impressionante do seu trabalho é notar como os diplomatas soviéticos efetivamente atuavam como empresários habilidosos. Eles tinham uma intuição apurada acerca do funcionamento dos mercados e pressionavam seus colegas capitalistas a serem capitalistas melhores. 

No meu livro, a maioria dos protagonistas eram economistas internacionalistas de orientação liberal que queriam reconfigurar as relações internacionais para promover um tipo específico de cooperação baseado em ideais wilsonianos. Acredito que esses ideais foram importantes em termos causais. Mas os efeitos da ideologia internacionalista liberal em face das restrições políticas e materiais variavam caso a caso. Na prática, muitas vezes prevaleceu uma tomada de decisão muito mais dura e pragmática, que se afastava desses ideais declarados. E, no final das contas, a partir de determinado número de desvios que se faz de uma ideologia, ela começa a ficar pouco convincente. Se você se afirma como internacionalista liberal mas pratica imperialismo, as pessoas acabarão achando que você é imperialista. E provavelmente estarão certas. 

O neoliberalismo é importante como ideologia e obviamente é importante no âmbito da política. Mas a minha intervenção nesses debates é dupla. Um dos lados consiste em, como você disse, demonstrar que as práticas que associamos ao FMI não surgiram da noite para o dia no final do século XX. Uma mudança ideológica não era necessária para que os agentes financeiros buscassem justificativas para fazer o que queriam. Se, ao invés de olharmos para os intelectuais ou para os tecnocratas formuladores de políticas, olharmos para os atores que buscavam garantir lucro e participação no mercado, encontraremos uma periodização e uma história causal diferentes sobre o surgimento do neoliberalismo. Muito do que associamos ao neoliberalismo emergiu de um ambiente prévio de interação de entidades privadas com o mundo e com os Estados no sentido de quebrar as barreiras a sua liberdade, remover os canais de contestação democrática às suas decisões economicas, transformar questões de governança em problemas de precificação e mercado, e assim por diante. Uma das coisas que o neoliberalismo ofereceu foi uma nova arquitetura intelectual e de legitimação para práticas mais antigas. De certa forma, o abandono dessas práticas após a Grande Depressão é uma história tão interessante quanto o seu retorno. 

Minha segunda intervenção é dizer que o tão discutido desvio contemporâneo do neoliberalismo em termos intelectuais não implica necessariamente uma transformação na forma como as instituições realmente atuam. Temos hoje uma mudança ideológica, mas o FMI segue fazendo basicamente o que sempre fez. Portanto, se ingressamos na era pós-neoliberal, resta saber o que isso realmente significará, por exemplo, para a política de dívida global. A China é um credor neoliberal? Provavelmente não, mas será a China um credor menos exigente para as economias de baixa renda e para os mercados emergentes? 

Como seu livro define o que é neoliberalismo? Uma possível má-interpretação seria concluir que os soviéticos queriam algo parecido com uma ordem mundial neoliberal, mas o meu entendimento é de que você descreve isso como uma consequência não intencional das restrições enfrentadas por uma União Soviética privada de dólares.  

Qual é o poder da ideologia na sua história? Em que momento, no contexto da formulação de políticas soviética, a ideologia dos atores que fazem parte dela deixa de ser convincente para eles próprios ou para os outros?

OSS: Uma das coisas que tento fazer é identificar as concepções relevantes para a prática soviética – fora desse espectro do que é esquerda e direita, marxista e não marxista, que se mostra um pouco inútil na prática. As concepções de mercado são muito relevantes para o meu trabalho. A adoção de um discurso de mercado se tornou uma ferramenta muito importante para que os soviéticos se movimentassem e adquirissem espaço na economia mundial. Eles se dirigiam a uma miríade de entidades—banqueiros, funcionários públicos, diretores de empresas—e diziam: se vocês não venderem para mim, comprarei de outro país. 

Agiam dessa forma porque os mercados internacionais não estavam institucionalizados naquele momento de Bretton Woods. Por exemplo, enquanto o Ocidente estava organizando a produção e o controle do estanho no início da década de 1930, em 1928 os dirigentes de diferentes corporações petrolíferas (as chamadas Big Sisters) já haviam formado um cartel para obstruir esse mercado e tornar o petróleo lucrativo. Esse foi um prelúdio do que a OPEP faria trinta anos depois. Eu concebo os mercados e as práticas capitalistas como arenas de poder nas quais diferentes entidades tentam desenvolver modelos de poder e influência para alcançar objetivos específicos e não, digamos, objetivos ideológicos. 

Em relação à ideologia soviética, o que vejo é um respeito palpável pelo discurso de mercado e pelos mercados em si. Não é que os soviéticos acreditassem que poderiam controlar os mercados, mas eles queriam participar deles e usá-los como ferramenta na sua própria formulação de políticas. Eles se engajaram nisso como qualquer país do mundo capitalista. Isso nos empurra para fora do binarismo entre economia de planificação e livre mercado. O que se encontra na prática é o oposto desse binarismo: a ideologia soviética e o mercado não eram antitéticos e, na verdade, os soviéticos ativamente buscaram criar mercados, o que muitas vezes foi barrado pela ação dos EUA. O elemento do neoliberalismo com o qual precisamos lidar é o fato de que o respeito pela autoridade dos mercados perpassou todo o espectro político. Não foi algo simplesmente imposto por figuras como Thatcher e Reagan. A atração que ele exerceu sobre a União Soviética é testemunha da sua força prática e ideológica. 

JM: Uma forma de colocar isso é dizer que pouca gente realmente deseja que os mercados existam por razões inerentes ao seu funcionamento. A mobilização de um discurso pró-mercado muitas vezes foi útil para alcançar determinados objetivos, mas esse discurso pode ser descartado assim que perder sua utilidade. Setores como o de energia e da produção de commodities primárias são exemplos claros disso: muito frequentemente, essas empresas se mostraram ávidas para romper completamente com a lógica de mercado a fim de assegurar sua fatia de participação e seus lucros. O planejamento não era uma exclusividade da esquerda. 

O setor energético é, de fato, importante para a sua história. O aprofundamento da dependência europeia do petróleo russo nessa época foi, em certo aspecto, um facilitador da estratégia soviética. Acho o seu argumento de que isso nos obriga a repensar a economia soviética muito convincente. 

oss: Qualquer estudo sobre a economia capitalista do pós-guerra e a evolução das finanças globais precisa integrar o setor de energia. Matthew Huber escreveu um artigo incrível argumentando que a organização do setor petrolífero é uma pré-condição para a evolução do fordismo no mundo desenvolvido. Isso foi estabelecido através de um violento processo de cartelização. Na década de 1930, os Estados Unidos eram o maior produtor de petróleo do mundo. A Comissão Ferroviária do Texas foi criada para gerenciar os preços e a distribuição no país (o que não foi feito sem um tanto de violência contra os trabalhadores do setor petrolífero do Arkansas e do Texas). Isso criou uma base firme para conter a inflação, base sobre a qual a era de Bretton Woods foi estruturada: o Plano Marshall, o FMI e o Banco Mundial. No início dos anos 1970, a fratura no sistema de precificação e distribuição global acabou derrubando o sistema de Bretton Woods. 

A segunda peça desse quebra-cabeças, especialmente no que diz respeito à União Soviética, é o Plano Marshall. A história consensual é a de que o plano se tratava de um auxílio para o desenvolvimento e para uma reconstrução nova e cooperativa da economia europeia. É uma ótima história, mas o trabalho de David Painter nos mostra que uma parte significativa do Plano Marshall era, na verdade, voltada à construção de infraestrutura na Europa para uma economia movida a petróleo. Tanto é que 10% do Plano Marshall simplesmente voltam diretamente para os EUA por meio da compra de petróleo. 

A indústria petroquímica da Itália virou muito importante porque foi o ponto de apoio que permitiu a abertura de um novo relacionamento com a União Soviética para todos os europeus. Toda essa indústria italiana foi construída com dinheiro do Plano Marshall, e os italianos inovaram nas transações de petróleo via sistema de dutos, o que acabou se tornando um vetor de abertura de mercados de capitais para os soviéticos. 

O governo dos EUA construiu a economia do petróleo na Europa, o que acabou gerando o efeito de atrair os soviéticos para lá. Esses arranjos internacionais foram a fonte da instabilidade dos anos 1960 e do próprio questionamento dos fundamentos de Bretton Woods, inclusive dos controles de capitais. O interesse da União Soviética não era desmantelar Bretton Woods completamente—eles se opunham especificamente aos controles de capital que os impediam de participar do comércio liberalizado na Europa Ocidental.

JM: O seu livro é uma excelente demonstração do poder exercido pelos controles de capital no sistema de Bretton Woods. Mas o que é mais fascinante na história é o fato de que quem lutava contra esses controles de capital não era somente Wall Street, mas também os diplomatas soviéticos. Nesse esforço de desmistificar Bretton Woods, vale a pena pensar em que medida ele foi de fato relevante como um sistema de estruturação internacional. Podemos chegar ao ponto de afirmar que Bretton Woods teve uma importância breve somente à medida que promoveu uma aceitação mais ampla do uso de controles de capital?

oss: O que é interessante sobre a trajetória soviética no contexto de Bretton Woods é notar que, em grande medida, os soviéticos só queriam voltar para o lugar onde pareciam estar chegando no final dos anos 1920. No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, não havia capital disponível, os soviéticos tinham acabado de ser invadidos por três potências ocidentais diferentes e, em seguida, ostracizados por se recusarem a pagar a dívida czarista. Estavam famintos por capital e só conseguiram fazer negócios depois que o Plano Dawes começou a circular capital pela Europa Ocidental. 

A Alemanha ofereceu um grande empréstimo. Isso deixou os estadunidenses furiosos, porque os EUA tinham acabado de emprestar aos alemães que, em seguida, estenderam a oferta aos soviéticos. Mas, já no início da década de 1930, os EUA acabaram aderindo ao plano, porque a União Soviética era o único país que ainda estava construindo alguma coisa. Em 1933, sob o comando de Roosevelt, os EUA abriram relações diplomáticas. Mas aí, claro, vieram as consequências da Grande Depressão, e a circulação de capital morreu. Uma das formas de ler Bretton Woods é como uma recuperação gerenciada da liberalização, sendo a liberalização de capital um dos resultados defendidos por múltiplos grupos sociais e lideranças domésticas. 

É interessante olhar para países pequenos que não desejavam a liberalização, como a Áustria. Há um trecho no livro que descreve como os soviéticos argumentavam que tanto eles quanto o FMI pediam à Áustria que se liberalizasse. A Áustria não queria, naturalmente, porque estava em uma situação na qual podia trocar sapatos por petróleo. Se a Áustria começasse a fazer comércio em marcos ou em dólares, os soviéticos poderiam pegar o dinheiro e comprar da Alemanha. O que você acha? Em que termos devemos pensar o que foi Bretton Woods?

jm: Um dos argumentos do meu livro é que, em muitas das decisões tomadas pelas instituições de Bretton Woods, a ideia de um liberalismo integrado como princípio organizador real da economia mundial foi desconsiderada.

Nunca houve um período em que os Estados sul-americanos, por exemplo, não fossem pressionados a se ajustar às instituições de Bretton Woods para ter acesso a recursos. No final da década de 1940 e no início da década de 1950, os países latino-americanos foram efetivamente instruídos a adotar políticas anti-inflacionárias e de ajuste fiscal se quisessem contar com recursos do FMI. Se tratarmos da totalidade dos países-membro do Fundo, não encontramos muita evidência de que o FMI tenha sido inspirado por qualquer princípio keynesiano ou derivado do New Deal de respeito à autonomia nacional.

Se quisermos pensar no liberalismo integrado como uma espécie de ideal normativo orientador, estaremos falando principalmente da Europa e da América do Norte. O próprio Keynes disse que Bretton Woods, mesmo em sua versão mais limitada, com a qual ele acabou concordando após suas demandas originais terem sido descartadas pela pressão dos EUA, não funcionaria como ele havia idealizado. Keynes morreu bastante insatisfeito com esse sistema, reconhecendo que seria dominado pelos EUA e, mais especificamente, dada a ausência de barreiras às ações do FMI, que seria difícil evitar uma evolução para uma espécie de máquina de condicionalidades, o que de fato acabou acontecendo. 

A história que você conta ilustra como os controles de capital sob Bretton Woods eram poderosos, mas também como nem sempre eram capazes de atingir os objetivos normativos que poderiam ser atribuídos a eles. Se a missão do libralismo integrado era proporcionar algum tipo de autonomia para que os Estados fizessem experimentos com a economia política nacional, o Estado mais experimental de todos, a União Soviética, não queria isso! Os que os soviéticos buscaram era remover os controles de capital que restringiam sua capacidade de atingir determinados objetivos.

Em algum sentido, acho você pode combinar as histórias que contamos para dizer que eu vejo o liberalismo integrado como algo que, se existiu de fato, foi bastante limitado geográfica e temporalmente; e você o vê como algo que existiu, mas que, pelo menos nesse caso, produziu os efeitos políticos opostos àqueles que poderíamos pressupor. 

Isso nos leva de volta ao início de nossa conversa: o capital não domina a União Soviética, mas a atrai. Quero levantar duas possíveis leituras equivocadas do seu argumento e ver como você responde a elas. Uma delas seria afirmar algo como: a União Soviética aprende a operar as ferramentas do Ocidente capitalista de uma forma que é, no limite, projetada para aumentar o poder soviético e, com isso, desfazer os vínculos do capitalismo por completo. Ou seja, os soviéticos procuraram atuar no interior dos vínculos da estrutura de poder que tentavam derrubar. A segunda seria entregar seu livro a um falcão liberal da Guerra Fria, como Francis Fukuyama, que diria que ele é uma demonstração incrível da inevitabilidade da vitória do capitalismo global: a adesão à logica do operacional do capitalismo por parte daquele que, ao menos convencionamente, é considerado o maior desafio em forma de Estado já posto ao capitalismo global.

oss: Esses são dois ótimos equívocos. Eles nos remetem ao que conversávamos antes, sobre como o capitalismo se desenvolve na prática, e como essa prática é uma luta por poder. Acho que Fukuyama, liberal que é, deveria ter muito cuidado, porque uma das razões pelas quais tais atores muito autocráticos são atraídos por esses sistemas de circulação de capital e troca de mercadorias é porque eles permitem esse tipo de poder autocrático. Esses sistemas eram atraentes não apenas para a União Soviética. Há uma seção do livro na qual registro o momento em que alguns países latino-americanos começaram, muitas vezes por meio de bancos britânicos, a se aproximar do comércio e do auxílio financeiro soviético. Isso incluía o Brasil, que na época era governado por uma junta militar fascista, presumivelmente inimiga dos soviéticos. Quando os soviéticos de fato estabeleceram relações com o Brasil, os cubanos protestaram. Mas isso de forma alguma dissuadiu os soviéticos.

Os vínculos banqueiros britânicos na América Latina, que remontam a centenas de anos, foram substituídos pelos estadunidenses entre as décadas de 1930 e 1950, levando os bancos britânicos a se unirem aos soviéticos. O que tornava a União Soviética ligeiramente diferente do Sul Global era o fato de que ela tinha produtos para vender de forma competitiva. Eles não estavam competindo no setor químico, mas podiam construir uma represa tão boa quanto qualquer outro país. 

Foi isso que eles fizeram na América Latina. Capitalizaram esses modelos de projetos e formaram uma espécie de aliança com os banqueiros britânicos. Quando o Brasil entrou em uma armadilha de dívidas com os bancos europeus, isso se deveu em parte à ajuda dos soviéticos no financiamento e na construção da infraestrutura para a qual esses empréstimos foram emitidos. Com relação ao Brasil, Quinn Slobodian descreveu o lamento dos banqueiros estadunidenses pelo exato motivo que você apontou: estamos na década de 1970, e aquela hierarquia íngreme que vinha junto com o liberalismo integrado se desintegrou. Na década de 1950, eles podiam dizer ao Brasil o que fazer; na década de 1970, o Brasil podia tomar emprestado todo o dinheiro que quisesse sem seguir as ordens dos EUA. 

É claro que essa crítica vem acompanhada de todo tipo de linguagem racista, de que os tomadores de empréstimos no Sul são crianças irresponsáveis e assim por diante. É impressionante o quanto o imperialismo e as construções culturais que o acompanham simplesmente nunca morrem. As finanças e a cultura têm as mesmas raízes. 


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